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quarta-feira, janeiro 10, 2018

A Descoberta do Corpo

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Já havia algum tempo que eu andava me sentindo mal, tanto física quanto emocionalmente. Não tinha ânimo para me exercitar, me sentia cansada facilmente e não estava me alimentando direito. Uma recente infecção urinária era o que me forçava a me manter hidratada e ativa. Fui para um festival de música numa aldeia esperando descansar a mente, mas não pareceu o bastante. O lado bom foi ter feito uma massagem terapêutica que no fim revelou-se muito mais do que uma solução para as tensões musculares.

Havia pelo menos 5 massagistas diferentes no espaço, cada um de uma especialidade distinta, variadas técnicas à minha escolha – bambuterapia, terapia com cristais, reflexologia. Alguns usavam uniforme, cada um tinha sua maca e uma variedade de instrumentos. Mas havia uma moça jovem, ela estendia um lenço sobre uma colchonete de ioga e abria uma caixinha de óleos essenciais, sentava-se sobre as pernas e ficava aguardando, em silêncio. Eu já vinha observando-a desde o dia anterior. Foi sua simplicidade e seu silêncio que me cativaram.

Eu nunca tinha feito uma massagem com uma pessoa desconhecida antes. Ela conversou um pouco comigo antes de começarmos, pediu que eu me deitasse de costas, fechasse os olhos e respirasse profundamente. Então, começou pelos meus pés, subindo para as pernas, seguido dos quadris, costas e pescoço, antes que pedisse que eu me virasse de frente, dando continuidade para os braços, o colo e a barriga. Tentei ficar o mais relaxada possível, mas é inevitável não tencionar algum músculo, principalmente quando a região é sensível ao toque. Fiquei muito incomodada quando ela tocou meus calcanhares, senti uma dor imensa nos quadris e uma tensão na região do pescoço.

Ao término da sessão, com aquele cheirinho de cravo pairando no ar, conversamos mais um pouco. Disse a ela que era dançarina do ventre, e que por este motivo era muito irônico que meus tornozelos e quadris estivessem lesionados, ao que ela contradisse que era exatamente por forçar demais essas regiões do corpo que elas estavam precisando de um descanso. Quanto à tensão na região do pescoço e também nas costas, apesar de eu não ter sentido nada, ela me disse que era uma questão emocional – alguma bagagem que eu estava carregando desnecessariamente. Fiquei com isso na cabeça: qual seria minha bagagem?



Precisou alguns meses para eu lidar com o meu corpo novamente. Foi num workshop de dança contemporânea. O tema era investigações coreográficas. Eu esperava qualquer coisa, menos o que tive. Ao chegar na sala, me deparei com as demais alunas, de turmas mistas de jazz e ballet, com suas sapatilhas e coques bem feitos. Me perguntei por um momento se poderia tirar as meias e o que deveria fazer com meus cabelos. Eis que chega a professora, uma senhora, com vestes simples, descalça e cabelos soltos. Naquele momento soube que através dela eu teria as respostas que eu precisava. Sentamos em círculo, ela pediu que todas ficassem descalças e começamos o aquecimento massageando nossos pés, seguido das pernas, dos braços, do pescoço... ela também pediu que nos descabelássemos e não nos importássemos com a maquiagem para que o aquecimento fosse efetivo. Durante todo esse processo, conversamos. Em seguida, fizemos uma sequência que consistia em esticar as pernas e rotacionar o tronco sobre elas sentando e deitando novamente, ora pela direita, ora pela esquerda. Depois, ao invés de ficarmos de pés, ela nos pediu que ficássemos de cabeça para baixo e olhássemos umas para as outras por baixo das pernas. Cabelos pendurados, cara vermelha, respiração ofegante, brilho infantil nos olhos. Era o começo de uma longa experiência de quebra de padrões.

Toda a aula foi trabalhada, basicamente, sobre uma única sequência que mesclava movimentos de tai chi chuan como uma forma de dança. Essa sequência foi repetida, decorada, desconstruída e reconstruída até ficar exaustivo e orgânico. Começamos trabalhando em pontos aleatórios da classe, em direções opostas. Depois fizemos uma série de caminhadas para mudarmos de lugar. Depois fomos divididas em 2 grupos, onde um executava a sequência e o outro contemplava. Então começamos a fazer exercícios com os olhos fechados. E foi fechando os olhos que abrimos os ouvidos.

A maneira como a professora lidava com a música na sala era pelo menos curiosa para mim, que era movida pelo som. Quase não tivemos música. Tínhamos uma sequência, mas o ritmo era marcado pela respiração, pisadas, urros. Nossa sequência exigia que o corpo estivesse completamente relaxado. Não deveríamos usar ponta, nem alinhar a coluna. E o objetivo maior era desequilibrar. Jogar a cabeça para trás com intensidade, sem medo. O problema é que eu tinha medo, sentia uma dificuldade enorme de fechar os olhos por completo e ficar na escuridão. Cair e me machucar.

A professora percebeu esse receio por parte dos alunos então propôs uma atividade diferente. Formamos um círculo, na verdade uma barricada. Um a um, íamos ao centro para repetir a sequência de olhos fechados. Não precisava ter medo, dizia a professora, havia pessoas olhando por nós. Eu não era do ballet ou outra dança acadêmica, eu era de danças folclóricas, populares, femininas. Deveria ser mais fácil para mim. Eu sou da dança tribal e estamos sempre nos gabando desse tal conceito de tribo. Mas fazia muito tempo que eu não me sentia tão segura quanto numa roda de pessoas desconhecidas. Não havia certo ou errado, não havia julgamentos, feio ou bonito. Era somente um corpo movendo-se no espaço. Era a preocupação com o próximo, a empatia. Era deixar-se levar, perder o controle e assim, criar a dança. Criar uma dança a partir do silêncio, do sentimento, das sensações que percorriam a pele, os braços contra o ar, os pés no chão.

Por fim, nos sentamos para assistir dupla por dupla numa expressão livre sem hora para começar nem hora para terminar. Entravámos em cena, fechávamos os olhos, percebíamos a presença do outro pela respiração. Em um determinado momento, a professora colocava uma música. Foi a mesma para todos. Sempre que eu sentia que o outro se aproximava, eu me distanciava para não colidirmos. E sempre que eu me movimentava, fazia barulho, para que o outro me percebesse. Houve uma dupla em especial que foi contra tudo isso: quando uma se aproximou, a outra deixou que se esbarrassem, e se tocaram, sentiram o corpo uma da outra. Foi lindo. E fiquei com vontade de experimentar aquilo. Me perguntei do que eu estava fugindo.

Para resumir a experiência, a professora nos pediu uma palavra. Sentimento de entrega, liberdade e emoção foram as mais ditas. Senti as lágrimas nos olhos e a garganta apertada. Eu não consegui resumir minha experiência em uma palavra. Só pude dizer que eu estava precisando daquilo.

Eu estava precisando daquilo.

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

A mulher em sua casa

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Passava os dias sozinha, resguardada em seu lar. Talvez, por este motivo, fosse comum que sua mente começasse a alimentar algumas alucinações. O pior era quando ele chegava, exausto, querendo apenas descansar, e ela quase implorando por um pouco de atenção. Estaria ela sofrendo de solidão?

Voltar para a casa dos pais estava fora de cogitação. O irmão entrava em contato, vez ou outra, preocupado com seu bem estar. Aos poucos, viu seus horários sendo invertidos. Não sentia sono a noite, acordava às duas da tarde, trabalhava até às oito e passava a madrugada tentando se descontrair um pouquinho. Acho que isto não está certo.

Para compensar as jornadas duplas em casa, contentava-se com uma taça de vinho, fechava as cortinas e aumentava o volume da música. Nada de almoços ou jantares. E, assim, conformou-se com este estilo de vida, mesmo não sendo saudável. Alguns meses se passaram antes de descobrir que havia outros como ela.

Uma amiga batera em sua porta. Fazia tanto tempo que não recebia visita que não se deu conta dos móveis empoeirados, do piso pegajoso ou da comida mofando sobre a mesa. Também não se deu conta do quanto empalidecera, de quantos quilos perdera ou de como gritava ao falar, atropelando as palavras. Uma selvagem.

Sair à forte luz do sol era quase uma tortura, os olhos lacrimejavam, a pele ressecava e seus cabelos reclamavam. Desta forma, deixou de receber convites para eventos e, quando surgiu a ocasião, percebeu que suas roupas já não lhe serviam mais. Não é por menos que o marido não lhe olhava com aqueles olhos carnívoros e o espartilho quebrado jazia no fundo da gaveta. Acabou o tesão.

Conversas vazias sobre o cotidiano alheio preenchiam a noite do casal. Não faziam mais planos para o futuro, não sentavam-se à mesa para as refeições, nem deitavam-se juntos no mesmo horário. Pequenos detalhes que faziam parte da rotina e ficaram para trás. Os finais de semana se resumiam em sentarem-se no sofá, frente à televisão. Pegar férias significava conseguir um adiantamento para quitar as contas. Que vida chata, não?

Foi assim que os personagens começaram a surgir em sua mente, alimentados pela sua imaginação, fruto do tédio que sofria continuamente. Descartado a ideia de terem filhos, começou com um animal de estimação, em seguida veio uma amiga e depois o amante. Era com ele que sonhava. Dócio, carinhoso, atencioso, ouvia suas queixas e sussurrava palavras sujas em seu ouvido. Era a personificação da solidão.

"Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar, que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo."  Clarice Lispector

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Um problemático para chamar de meu

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Sua pele coberta de cicatrizes escondem os segredos de um passado obscuro, uma alma perturbada, mas o sofrimento se revela através dos seus olhos rebeldes, ou quando range os dentes à noite. Seu sorriso é superficial, sua boca está sempre curvada para baixo, seus toques são breves e ele não gosta de receber carinho – teu corpo já fora muito maltratado. Ele já sentiu o sangue arder na pele, o calor queimar sua superfície, a lâmina cortar fundo e deixar uma ferida aberta e incurável, mas as sequelas maiores são as psicológicas: ele já viveu a agonia de esquecer, sua mente traiçoeira não lhe permite saber o que foi real ou não; e a agonia de reviver todos os dias as lembranças dolorosas, carregadas de mágoa e rancor. Oscilando entre o amor e o ódio, não há mais lágrimas a derramar porque a fonte já secou, a frieza abraça teu coração de tal modo que ele se tornou impenetrável.

Somente quando roça tua barba em meu rosto, quando me deixa te abraçar enquanto dorme ou quando me olha com ansiedade antes de eu partir é que sei que ele me ama. Desisti de esperar por um beijo teu, mas todas as manhãs sinto teus lábios em meu rosto, numa despedida demorada, às vezes acompanhada de um cafuné gostoso. Preciso aprender a respeitar teu espaço, da mesma forma que sinto a necessidade de ter toda sua atenção somente para mim, sei que seu amor possessivo me domina de tal forma que só tenho olhos e ouvidos para suas palavras, inclusive as que não são ditas, ou para as que se perdem nas entrelinhas. Repreender-me através de sermões é a sua maneira de demostrar que se preocupa comigo; a gente briga só para poder fazer as pazes depois.


terça-feira, setembro 06, 2016

Rotina

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Ouço o despertador apitar, mas ignoro seu chamado. Ainda é cedo demais para levantar da cama. E a cama está tão gostosa, com cobertores quentinhos e macios, a luz fraca das primeiras horas da manhã entrando pelas frestas da janela e inundando o quarto... e o cheirinho do meu moreno, adormecido ao meu lado. O chamo pelo nome e ele resmunga.

“Mor?”
“Hã?”
“Que horas são?”
“Sete horas.”

Tenho que levantar, tomar café da manhã, jogar uma água no corpo, preparar minha marmita, colocar ração para o gato, pegar o material da faculdade... tenho exatamente uma hora para fazer isto. Mas está muito cedo... talvez eu possa dormir mais uns quinze minutinhos.



Oito horas, saio de casa com a cara amassada de quem acabou de levantar. Os lábios ainda estão inchados e o cabelo, meu Deus, meu cabelo! Foi-se o dia em que eu me demorava a passar batom e delineador, escolher um brinco e outros apetrechos para me embelezar.

A vaidade abriu mão de mim. Cabelos por pintar, unhas por fazer. Preciso de um banho de loja. Necessito. Emagreci alguns quilos. Isso não é todo ruim, mas as roupas não estão me servindo. E meu moreno não gosta de mim assim.

E o estresse. Preocupação com a casa, com o trabalho, com a faculdade. Preciso dar conta de tudo, mas também preciso dar conta de mim. Que tempo? E ainda tenho que me lembrar de dar atenção para a família. Tenho que me lembrar de sorrir e ser simpática.

Tenho que me lembrar de respirar fundo e não gritar com a colega de faculdade que pensa que pode me tratar como se fosse minha chefe ou minha mãe. Já fiquei com dependência em algumas disciplinas nos semestres anteriores por não querer fazer trabalhos em grupo. Não posso deixar isso acontecer novamente. Respira, inspira, não pira.

Negócios são negócios, amizade à parte. Trabalhamos juntas, mas não quero sua amizade. Já tenho alguém com quem compartilhar minha vida. É a minha felicidade ao final do dia. Chegar em casa e desabafar um pouco, me largar no sofá, passar o final de semana de pijama. Voltar pra cama e dormir abraçadinho.

Estou bem assim, no meu mundinho.

quarta-feira, junho 22, 2016

Retratos da Vila Real #3

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O garoto se converteu. Deixou de frequentar a avenidas nas madrugadas e largou os maus hábitos. Até aí, tudo bem, tinha ficado feliz por ele. O problema é que o garoto começou a pregar para os outros garotos, convidando-os a ir para a igreja, e o rendimento dos negócios começou a cair. Então, teve que ir falar com a mãe do garoto.

Guilherme* é um jovem aspirante a traficante, mas muito astuto. Não achou nada normal quando os "clientes" vieram com uma ideia de que era melhor "parar". Até ficava feliz pela força de vontade deles, era cristão também, mas isso era ruim para os negócios.

Foi falar com a mãe do pregador, poderia até soar ameaçador, mas conhecia a velha e tinha respeito por ela.

Diz pro seu filho que se ele não parar de afastar a freguesia..." deve ter dito ele.

Tinha uma dívida para pagar. E essa dívida era eterna: se não pagasse em dinheiro, pagaria com a vida.

Obs. Os nomes reais foram omitidos para preservar a identidade dos entrevistados.

quarta-feira, junho 15, 2016

Retratos da Vila Real #2

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Ele era pai de família e amava suas crianças. Mas estava desempregado, sofrendo humilhações da esposa e só se sentia bem quando estava sob o efeito de drogas.
Não tem o que comer em casa. Faz três dias que estou fora, não consigo parar de usar. (SIC)
Faz de tudo para criar um homem de bem, quer que seu filho tenha oportunidades na vida, mas o garoto não vai bem na escola quando os pais brigam. "Faça o que eu digo e não o que faço" é o modelo de educação que eles seguem.

Recentemente, o casal recebeu queixas da escola de que o garoto andava agressivo, briguento, respondendo mal aos professores.
Se eu não mostrar que eu sou durão, eles vão querer fazer comigo que nem fazem com os meninos fracos, viadinhos. (SIC)
"Eles" são os alunos mais velhos.

A mulher deu à luz uma menina, há poucos meses. Ela ama a família e tudo que pede é que o marido tome jeito. Afinal, o menino precisa dele, vê o pai como um herói, típico de uma criança.

Mas a criança está crescendo e não vai gostar nada do que vai ver quando passar a enxergar com os olhos de um jovem. Talvez ainda haja tempo de moldar o seu caráter para ser um homem de bem amanhã, mas se não fizerem nada a respeito hoje, amanhã pode ser tarde demais.

Obs. Os nomes reais foram omitidos para preservar a identidade dos entrevistados.

terça-feira, junho 14, 2016

Sem-Teto

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A família se foi, derrubaram a casa e abandonaram o Pretinho, mas ele continuou ali porque acreditava que aquele era o seu lar, tinha esperança de que aquelas pessoas que ele acreditava ser sua família retornassem.

Quando chovia, se escondia debaixo do teto onde um dia foi um banheiro. Quando sentia frio, se enroscava nos panos velhos deixados ali. Os vizinhos trocavam sua água e deixavam restos de comida para ele.

Mal nutrido, Pretinho começou a definhar, mas mantinha o brilho de menino no olhar. Até tentaram lhe adotar, mas Pretinho não quis arredar o pé dali, pois ali era sua casa, e ele esperava pacientemente sua família retornar.

Um dia apareceu algumas pessoas estranhas, avaliaram o terreno, quanto trabalho daria para limpar. Um menino rechonchudo tentou colocar o Pretinho para fora, debaixo de pontapés. Acuado, o Pretinho se escondeu, mas foi só a família ir embora que ele retornou para o que acreditava ser seu lar.

Noutro dia, apareceram as máquinas e derrubaram o único teto sob onde o Pretinho dormia. Ele ficou mais triste do que bravo, era muito manso e dócil para sentir qualquer resquício de raiva. Mesmo assim, ele continuou passando as noites no entulho que um dia chamou de casa.

Certa manhã, fui levar comida para o Pretinho, mas ele não estava mais lá. Ou levaram ele embora, contra sua vontade, ou morreu de solidão. Não sei o que seria pior. Ou ainda, talvez, quem sabe, morrera feliz em seu lar. No que você prefere acreditar?

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Apenas um Almoço

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Saí do consultório com a receita na mão. Um misto de sentimentos contraditórios se confrontava dentro de mim. Até aquele ponto, tudo não passara de um relacionamento extraconjugal, mas, com um bebê a caminho, a situação tomara outras proporções. Precisava fazer alguma coisa, precisava colocar um ponto final nisso. Mas primeiro eu precisava que ele assumisse uma posição. E meu marido tinha que aceitar o divórcio, facilitar as coisas. Não aguentava mais toda aquela ladainha! Há tempo nosso casamento esfriara e ele sabia bem disso.

Liguei para meu filho.

- Preciso que você fique com sua irmã, tenho que sair.
- De novo? Aonde a senhora vai?
- Não é da sua conta, não se intrometa na minha vida. E não fale nada para seu pai! – frisei.

Prestativo como sempre, ele deixou a namorada e veio para casa. A garota poderia esperar, o assunto aqui era mais urgente. Ela já sabia de tudo, só não enxergava os fatos. Naquela semana mesmo havíamos conversado. "Estou sem dinheiro, tive que fazer uma caridade...", disse eu, quando ela tentou me vender mais uma das suas peças artesanais. Claro que ela não imaginava que eu me referia a seu pai. Fazia depósitos regulares em seu nome para ajudá-lo a pagar a pensão da filha, já que ele tinha que perder o dia de trabalho para me ver. Não é como se eu estivesse lhe comprando, só não queria que ficasse preocupado com horários.

Mais ou menos há um ano e quatro meses atrás havia discutido com sua filha e meu filho sobre nossa amizade. Ela queria que eu parasse de trocar mensagens com ele, mas resisti. "Se ele der em cima de mim, não darei corda, não se preocupe.". Doce ilusão. A coisa começou assim, como um bate papo, falávamos sobre trivialidades da vida. Até marcarmos o primeiro encontro, sem compromisso, um almoço. Ele era atencioso, me comprava presentes e exaltava minhas qualidades. Ele me fazia sentir jovem outra vez. Não demorou para que eu sentisse necessidade da sua presença, da sua voz, do seu toque. Ele dizia que me amava, que queria que eu fosse sua mulher.

"Vai dar tudo certo!" sorri para comigo, com a lembrança feliz fresca na memória e um friozinho crescente na barriga. Ele poderia até gostar da ideia. Poderia ser o pai que nunca foi para sua filha e eu seria a madrasta perfeita. Gostava dela, era uma boa garota, apesar de eu não considerá-la a mais apropriada ao meu menino. Ele tinha uma amiga de infância que eu sempre desejara como nora. Ela havia se casado e tomado outros caminhos. Mas nos reencontramos nos ensaios de quarta e fiquei sabendo que estava em processo de separação. Talvez houvesse alguma chance, afinal.

Ah, a música. Aprender a tocar um instrumento foi, talvez, o primeiro passo para me sentir autoconfiante e ousada o suficiente para fazer tudo o que fiz, para me sentir livre e viver um amor proibido. As aulas de música também me trouxera boas amigas. A mais próxima tinha um casamento aberto e me convencera de que estava tudo bem, eu não precisava me sentir culpada. Pena que o meu marido não se interessou por ela!

À espera do táxi, liguei para ele.

- Precisamos conversar. Você pode me encontrar?
- Quando?
- Hoje.
- Eu tenho que trabalhar...
- Eu ajudo você, fala de quanto precisa que eu deposito. Chegarei por volta da meio dia, nos encontramos no mesmo lugar.
- Tudo bem, mas não posso demorar muito.

Essa era uma das vantagens de namorar um comerciante: ele podia fechar a sua loja quanto bem quisesse, ainda que isso estava me custando deixar as minhas clientes na mão e ainda ajudá-lo financeiramente. Mas valia a pena, ele me dava toda a atenção que eu precisava. Ao contrário do meu marido, que priorizava o trabalho e estava sempre viajando.

Não é que eu não o amasse mais. Ele era um excelente pai de família e eu precisava fazer algo a respeito. Nosso casamento era comum demais, perfeito demais. Sem vícios, sem ciúmes, sem traição. Filhos exemplares, uma vida estável, casa própria, carro na garagem. Eu era uma mulher independente, uma profissional autônoma, uma católica devota, mas ainda tinha que cuidar da casa, ser uma boa mãe, uma boa esposa. Já era hora de jogar tudo isso pro alto, viver um pouco.

Chegamos pontualmente em nosso restaurante preferido. Logo ao avistá-lo, senti-me estranhamente excitada. Eu o desejava e ele sabia disso. Não tanto pelo homem que ele era, poderia ser qualquer um. Era mais pelo sabor do perigo. Sentia-me devassa. Não nos demoramos na conversa e fomos para o motel mais próximo, atropelando as horas, mais uma vez.

Ao se despedir, ele saiu todo apressado, pois estava atrasado para um compromisso e pela primeira vez me senti usada. Cheguei a minha casa quase noves horas da noite, meu filho havia cuidado da janta e inclusive botara a casa em ordem. Há tempo eu deixara os afazeres domésticos de lado. Em breve, meu marido chegaria do trabalho, me daria um beijo estalado nos lábios e se refugiaria no quarto, alegando estar cansado. Era sempre a mesma coisa. Esperei que meu amante ficasse online para continuarmos a conversa. Aliás, era um alívio que meu marido não se interessasse por redes sociais.

"Precisamos decidir", disse eu.
"Decidir o quê?"
"Sobre a gravidez. Preciso da sua ajuda."
"Eu vou cuidar de você."
"Você viu a receita, não tenho dinheiro para comprar remédios e não posso pedir pro meu marido. Já basta eu estar usando o convênio dele."

Esperei. Esperei. Mas ele demorou a responder. Impaciente, tornei a pressioná-lo. Às vezes era necessário recorrer a diferentes meios de comunicação.

"Você vai me ajudar?"
"Tenho minhas contas para pagar, me desculpe."
"Mas quando você precisou de mim eu te ajudei!", quis chorar.
"Eu sei, anjo."
"Para de ser egoísta. Você deveria dar valor às pessoas que realmente te amam."

Mas estava falando aos ventos, pois ele não me dava ouvidos.

Uma semana se passou e o natal se aproximou. Meu filho e a namorada passariam a véspera na casa dele. Apesar de sentir-me enciumada, incentivei-os. "Quero que olhe para meu filho e se lembre de mim. Queria estar aí, mas pelo menos terá um pouco de mim com você e um pouco de você comigo.", disse eu, lamentando o infortúnio. “Mesmo longe, estarei de olho em você! Se comporte” reforcei.

Tinha esperanças de que, no próximo natal, estaríamos juntos, mas já não me sentia tão segura assim. Meses atrás, eu havia tomado a decisão de que não desistiria dele. Estava apaixonada. Não por ele, mas pelo que a gente vivia. Então, quando a coisa desmoronou, a insegurança bateu na porta e me dei conta... ainda que não quisesse acreditar, eu estava sozinha nessa.

Foi no sábado à noite após o natal. Recebi uma mensagem curta do meu amante me informando que eles descobriram. A menina leu nossas conversas no celular do pai. Intrometida. “Mas o quanto eles sabem?”, questionei. “Tudo”, foi a resposta.

Passei o dia em agonia, esperando. Em breve meu filho entraria pela porta, me colocaria para fora de casa e minha vida estaria arruinada. Eu precisava pensar num plano, preparar minha defesa, mas nada me vinha à mente. Esperei, esperei. Mas ele não apareceu, disse que ficaria na casa da namorada. Um medo repentino tomou conta de mim... Ele não vai mais falar comigo. Ele não vai mais voltar pra casa. Ele me odeia.

Segunda-feira. Ele chegou do trabalho e passou por mim direto para seu quarto, sem dizer nada. O que vi em seus olhos me apunhalou: estava preparada para tudo, menos isso. O desprezo. A decepção. E tudo o que passei com ele, havia esquecido?

- O que você sabe? – questionei. Ele parecia frio e distante. - Não importa. Você não tem provas.
- E se eu tiver? – encarou-me e me senti encolher de humilhação.
- Conta! Vai lá, conta pro seu pai! Ele ficará contra você, isso eu garanto. – Intimidei-o, tentando soar ferina.

Mas ele se manteve implacável. Sem retrucas, apenas o olhar de ódio. Com quem aprendera isso?

- Vou me matar. Não aguento mais! Não quero mais viver e causar sofrimento para os outros! – explodi.
- Suas ações vão influenciar diretamente na vida da minha irmã. Pense nela, primeiramente.

Não me contive e desatei a chorar. Por mim já havia saído daquela casa, mas não podia deixar minha garotinha. Reclusa em meu quarto, mais uma vez meu marido tentou me acudir. Sua preocupação constante, sua devoção só piorava as coisas, fazia eu me sentir um lixo.

- Você é um burro! Idiota! Inútil! – urrei contra ele.
- Você precisa de ajuda. – foi tudo que me disse.

Então, começou a juntar minhas coisas, dizendo que eu teria que ir embora. Mas, passado a raiva, ele desistiu, não teve coragem.

E justo neste momento em que eu mais precisava de atenção, meu amante passou a me ignorar. Nunca me senti tão sozinha. As dores na barriga aumentavam a cada dia e eu sabia que se não fizesse alguma coisa iria perder o meu bebê. “Preciso de uma posição sua. Vai me ignorar? Então sua filha manda em você?” questionei-o. “Só Deus pode nos julgar!”. Ele não podia jogar para o alto tudo o que vivemos juntos com tanta facilidade. “Você realmente não se importa?” tornei a pressioná-lo, mas não obtive retorno. “Vão nos colocar frente a frente, você vai negar? E não adianta se esconder debaixo da saia da sua irmã!". A raiva crescia e tomava forma dentro de mim. "Acha que está certo o que está fazendo? Pense nisso."

Pensei realmente em me matar. Pedi para Deus me levar. Era horrível me sentir abandonada. Meu coração me traiu. Justo eu, que sempre fiz tudo para ajudar quem precisa, no momento que mais precisei, deram as costas para mim. Que sentido tinha a vida?

A garota me bloqueou em quase todos os perfis sociais, mas eu ainda podia visualizar suas fotos. Era melhor que não o tivesse feito, ver a família reunida e feliz só me machucou mais. Meu filho tinha uma nova família, não pude deixar de pensar. Ele escolhera ficar do lado do sogro... Todos eram inocentes, só eu era a vilã. Não podia pagar por tudo sozinha, ser crucificada por todos. “Fala pra sua filha parar de ser essa criança mimada e intrometida, a vida é nossa... seja homem! Seu medroso! Covarde!”, ataquei-o. E então, diante do seu silêncio, senti ódio.

O sentimento foi tão forte que refletiu em meu estado físico. Senti o sangue quente escorrer entre minhas pernas e corri para o banheiro, com uma dor sufocante no pé da barriga. Quis gritar, mas não pude, estava com falta de ar. Era tarde demais, eu sabia. Deixei que as lágrimas irrompessem dos meus olhos, não sabia se chorava de tristeza ou de ódio. Eu tinha duas opções a partir dali: tentar reconstituir a minha família, aprendendo a amar meu marido novamente, ou ir embora daquela casa e começar do zero, uma vida nova. Em qualquer das opções, uma coisa era fato: eu tinha que ignorar o que vinha acontecendo nos últimos cinco meses, eu tinha que deixar aquela família em paz. A palavra-chave aqui era amor próprio.

Deitei-me na cama e abracei os joelhos, esperando que tudo aquilo passasse. No que eu havia me tornado? Até que ponto cheguei? Por que fiz isso com a minha vida? Mas não havia respostas claras ao meu alcance. Só um vazio, escuro e eterno. Não percebi em qual momento exatamente adormeci, só sei que acordei com um leve cafuné na cabeça e quando abri os olhos meu marido sorria para mim. Minha cara devia estar péssima, por que sua expressão era de pena. Mas, por trás da pena, eu vi amor e sinceridade. Ele sabia de tudo, sabia que tinha outro e sabia também que havia acado. E naquele momento eu soube que, apesar de tudo, apesar de não ser o homem dos meus sonhos, ele nunca me deixaria na mão. Mas de nada adiantaria seu perdão, se eu não conseguisse me perdoar.

Na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

As Namoradas do meu Pai

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Meu pai é bonito, charmoso, atencioso. Cozinha bem, cuida da casa (à seu modo). Mas, acima de tudo, é um bom ouvinte. E o que mais tem por aí são mulheres carentes de atenção... Não gosto de termos como “mulherengo” ou “pegador” para descrever meu pai, pois soa como se ele desvalorizasse as mulheres e não é isso que acontece. Ele cuida delas. Mas ele não pode abrir os braços para qualquer uma, principalmente se ela for menor de idade, usuária de drogas ou casada. Espero que com suas desventuradas experiências passadas ele tenha aprendido a lição...

Amores, ele teve poucos, mas mulheres, muitas. Minha mãe não foi a primeira e muito menos a última. Todavia, ela foi especial. Ainda hoje, depois de mais de 15 anos separados, eles se chamam de “pai dos meus filhos” e “mãe dos meus filhos”. É isso mesmo: nenhum dos dois teve filhos com outros parceiros, e não foi por infertilidade, mas por cuidado, precaução. Proteção, sempre! Há não ser por sua terceira (?) esposa, que durou em média três anos. Com esta ele quis filhos. Ainda bem que não teve.

Antes da minha mãe houve o seu grande amor. Meu pai tinha o belo hábito de escrever poesia. Muitos destes textos eram endereçados ao seu amor ou à minha mãe. Mas a terceira esposa se desfez de todos os cadernos, o que o deixou muito triste. Entretanto, com a era das redes sociais, meu pai aprendeu a brincar com as palavras, formar desenhos, compartilhar gifs. E não há nada mais gostoso que receber elogios pelo que escrevemos! Assim, ele semeia versos, citações e versículos bíblicos para todas suas amigas virtuais. Todas são especiais. Ele nunca deixa um aniversário para trás!

Com as redes sociais também vieram as namoradas virtuais, dos mais diferentes lugares. Ontem mesmo, uma amiga distante ligou pedindo consolo, pois seu ex-marido estava num leito de hospital. E também tem as que moram mais próximo, e com essas dá para marcar encontros. Todas conhecem seu endereço e são bem vindas para visitá-lo, seja de passagem ou para se hospedar temporariamente. Teve aquela de Santos que quase virou noivado. Engana-se quem pensa que ela é praieira. Menina recatada, evangélica e... virgem. Viram-se poucas vezes, mas conheceram a família um do outro e fizeram planos para o futuro. Ele a queria como companheira, mas avisei-lhe “você não está casando só com a filha, mas com a mãe também!”. E acho que foi essa mãezona que acabou ruindo o relacionamento.

Antes da terceira esposa, lembro-me de bem poucas. Mas a que mais gostei foi uma aspirante a cabeleireira que passou uns dias morando conosco, pois estava tentando se divorciar do marido. Era mais uma amiga da família do que namorada, mas considerando que nem prima escapou, então ela pode entrar pra listinha. Ela criticava tudo o que eu fazia: desde limpar a casa, cozinhar ou cuidar de mim mesma. Mas era ótima para conversar sobre garotos! E eu não ficava tímida para fazer perguntas íntimas para ela. Estava no pico da adolescência, com aquela curiosidade obscena de querer saber das coisas.

Depois da terceira esposa, teve uma senhora que parecia mais a mãe dele. Ficava preocupada com sua alimentação, deixava a casa um brinco, mas morria de ciúmes do computador. “Você não dá atenção para mim!”, reclamava ela. Depois descobrimos que ela era mais velha que ele. Todavia, por outro lado, ela era dócil e carinhosa. Ainda assim, suas expectativas foram quebradas e, quando viu que não daria em nada, largou tudo e foi-se embora.

Agora eu cresci e não é a mesma coisa. Todas queriam conhecer a garotinha bonitinha do papai. Agora ficam sem graças e com um pé atrás. Talvez por que já basta a irmã ranzinza dele, que põe suas namoradas contra a parede. Nesta semana mesmo, ele estava de encontro marcado, mas até agora só tomou bolo. Aiaiai, eu havia me esquecido de como é casa de homem solteiro, especialmente meu pai. Mas, sinceramente, depois da experiência de ter MÁdrasta, prefiro mil vezes meu pai solteiro!

A Chris* não deu as caras, mas amanhã virá a Mi*. Perguntei a ele como a Mi era e a única descrição que ele me deu foi “ela usa óculos”. Acho que isso já diz tudo! Mas eu queria mesmo era conhecer a Chris, gostei dela. Arruma a casa, cozinha bem, ajuda com as contas. Ajudar com as contas é quase que um requisito para ser namorada do meu pai.

Não duvido que ele chegue à casa dos 60 com uma namorada de trinta, mesmo que eu me negue a dividir minha herança. Meu irmão não acha nada bonito esse comportamento do pai, apesar dos dois se parecerem muuuuuito. Não é que eu aprove, mas aprendi a aceitá-lo e amá-lo deste modo, desde o dia em que ele me disse que nenhuma mulher ocuparia meu lugar, “as mulheres podem ir e vir, mas você será minha filha para sempre”. sz


* Os nomes reais foram trocados para conservar as identidades dos personagens.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

Delícias de Soraia: A Primeira Vez

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Quando Nágila e eu nos aconchegamos na cama, fiquei nervosa. Senti aquele friozinho na barriga típico de quem é virgem. Mas aquela não era a minha primeira vez.

Tá legal, aquela era a minha primeira vez com uma mulher. Da mesma forma que Nágila se sentiu despreparada e confusa quando fez sexo anal pela primeira vez. Mas, o que nunca havia se passado pela minha mente antes, Nágila tinha prática em transar com mulheres e, portanto, facilitaria as coisas para mim, tolerando minha inexperiência. 

Ela sabia que dividir uma ou duas doses de uísque comigo era o suficiente para eu não ficar tão tímida no momento. 

Enquanto se despia, Nágila sorria maliciosamente para mim. Fiquei tão hipnotizada com seu jeito de tirar as roupas e mostrar aos poucos o seu corpo nu que me esqueci de me livrar das minhas. Nágila era linda nua. 

Quando trocávamos de roupa perto uma da outra ou quando ela pedia minha ajuda para espalhar o creme na pele, sempre admirei seu corpo. No início pensei que era inveja, mas depois soube que não. Eu adorava o tom moreno da sua pele, mas também apreciava meu tom rosado e não queria mudar de cor. Então, simplesmente soube que lhe admirava. 

Porém, nesse momento, eu estava lhe vendo com outros olhos. Não era admiração e sim, atração. Eu estava lhe desejando. Nossa, e como! Como eu queria lhe tocar. Logo, percebi que estava ficando excitada, e que minha expressão revelava isso de alguma forma, se não Nágila não estaria me respondendo com um beijo enquanto me despia, ansiosa. 

Sentia-me um pouco constrangida, mas nada que pudesse me tirar a ideia de curtir aquela noite quente. Já nuas, com os corpos lado a lado na cama, Nágila olhou-me com um jeito provocante, com um sorriso doce na ponta dos lábios, enquanto afastava alguns fios de cabelo dos meus olhos, dando-me selinhos ternos e demorados. Minha vontade era de fechar os olhos, mas queria olhar-te, ao mesmo tempo, e me senti envergonhada demais para abaixar a cabeça e analisar seu corpo. 

Do meu rosto, sua mão desceu para um dos meus seios, o qual acariciou de leve. Não pude evitar que eles inchassem e apontassem para ela. Isso funcionou como um convite, pois logo sua boca escorregou pelo meu queixo, demorou-se em meu pescoço, mordiscando de leve minha orelha e então, abocanhou meu seio e lhe chupou o suficiente para me arrancar uns gemidos e não segurar o ímpeto de prender seus cabelos em meus dedos. 

Para meu espanto, a boca de Nágila tornou a descer, parando em meu umbigo. O prazer aumentou, mas eu ainda desejava mais, só não sabia como pedir. Quando Nana começou a descer lentamente, não aguentei e pedi que parasse. 

- Ei, relaxa Soraia! Não tenha medo. – disse ela. 

Não é a toa que dizem que somente uma mulher pode saber verdadeiramente o que outra mulher quer, pois quando Nágila me tocou com a língua eu quase explodi. Então, lá estava ela, entre minhas pernas, fazendo círculos com a língua e colocando-a de leve dentro da minha vagina, e o mais impressionante de tudo, soprando-a, proporcionando-me sensações de refrescância. 

Eu me segurava nos lençóis da cama, totalmente descontrolada, quando ela veio ao encontro dos meus lábios novamente. E então, sem nada dizer, pegou minhas mãos e passou contra seu corpo inquieto, que se encontrava em cima de mim. Ela não precisava dizer nada, eu sabia o que queria. Então, cautelosa, toquei-lhe com o dedo, fazendo círculos no clitóris. Depois, coloquei um dedo dentro dela. Insatisfeita por não preencher o espaço, coloquei mais um. Surpreendi-me quando ela me pedisse que colocasse em outro lugar, Ela se referia ao seu anús. 

Ouvir seus gemidos contra o meu ouvido enquanto ela expressava seu prazer me arranhando era uma delícia. Porém, eu estava certa de que não era nem de longe sua melhor parceira de cama. 

Deliciamos-nos com carícias a noite inteira. Nágila conseguiu fazer com que eu relaxasse e me pediu que eu fizesse tudo o que sentisse vontade. Mas mesmo vendo que ela estava gostando, ás vezes eu me sentia uma idiota, com medo de não estar fazendo certo. 

Afinal, Nágila curtia vários apetrechos sexuais, como algemas e loções que transmitiam sensações diferentes. Quando dormimos, estávamos exaustas, mas eu me sentia leve e em paz. Talvez por que não sentiria ardência ao usar o banheiro na manhã seguinte. 

Sem dúvidas, namorar uma mulher era bem mais curioso, prazeroso e relaxante. Pois uma sabia o que a outra sentia, então os segredos se desfaziam. Uma mulher não.

. . .


Abri os olhos antes dos primeiros raios de sol alcançarem o céu, aquela sensação gostosa pós-sexo percorrendo meu corpo, nada aquela dorzinha incômoda no pé da barriga. Ao meu lado, o corpo esguio da Aline se aquecia junto aos meus, seus cabelos negros, tão cheirosos, fazia cosquinha na minha orelha direita. Ela era linda dormindo. 

Então, a consciência me atingiu em cheio: Deus, eu sou lésbica! Isso não parece certo, sou cristã. Ok, não sou uma católica devotada, mas lembro-me de ter feito catequese quando criança. Além disso, eu amo o Mateus. Não amo? Então, acredito que isso faz de mim apenas uma simpatizante. É isso. A Aline é minha melhor amiga, é natural me sentir atraída por ela. Não é? O que tivemos ontem foi tão bom... acho que eu faria de novo. Faria, sim. Então talvez eu seja bissexual!! Nossa, esse termo não é nada bonito... soa tão mal. 

- Soraia? Você ta legal? – Aline me encarava com o rosto amassado contra o travesseiro, seus olhos de amêndoas doces brilhavam de ansiedade. 

- To! Claro! – respondi de prontidão, tentando soar o mais verídica possível. 

Um sorrisinho malicioso despontou na ponta de seus lábios. 

- Então porque está fazendo careta? – disse ela, me enlaçando com mais força. - Você sempre faz caretas quando pensa demais. 

Se fosse uma gatinha, estaria ronronando de prazer. 

- Estou pensando qual o melhor rótulo para o meu caso recém-descoberto. – sincera, desviei os olhos envergonhada, minha boca querendo sorrir, mas eu não permitia. 

Sem resistir, Aline soltou uma risada gostosa, talvez um pouco estridente. 

- Relaxa, ruivinha. Não precisa pensar nesses paradigmas idiotas. – seguiu-se alguns segundos de silêncio para que eu me reconfortasse. - Vou fazer um café pra gente! – dito isso, ela me pegou de surpresa num selinho rápido e molhado e se levantou. 

Sem me conter, admirei a maneira como o shorts do pijama se agarrava às curvas do seu quadril. Mordisquei o lábio, passando a língua por onde sua boca havia encostado na minha. Mais uma vez, aquela sensação deliciosa percorreu o meu corpo... eu estava apaixonada.

As Delícias de Soraia: Primeiro Beijo

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As lágrimas lhe encharcavam o rosto, inclusive seus lábios em forma de coração, que tremiam enquanto ela dizia que me amava. Com as nossas testas encostando uma na outra, compartilhamos aquele momento de dor. Sim, eu estava triste também, mas não tinha o que falar para aliviar aquela sensação ruim. 

Então, ainda com os nossos olhos fechados, ela segurou meu rosto entre suas mãos e me beijou de leve nos lábios úmidos. Eu fiquei espantada, mas ao mesmo tempo notei que a sensação era boa. Tão boa que nem abri os olhos, e abracei-lhe com mais firmeza. Foi aí que nosso abraço deixou de ser amigável para se tornar amoroso, com as mãos acariciando a pele morna uma da outra. 

Não sei exatamente quando, mas o soluço simplesmente se cessou e estávamos com a boca encaixada uma na outra, apreciando o prazer que aquilo proporcionava. Nossa, como ela beijava bem! Muito melhor que qualquer homem que eu já havia beijado. E éramos da mesma altura, portanto eu não ficaria com dores no pescoço depois. E seu corpo contra o meu era muito mais macio, mais aconchegante do que grudar num monte de músculos. 

Nágila era uma garota espetacular. E logo eu soube que toda aquela atração que sentia por ela desde o colegial não se tratava de admiração e sim de desejo. Eu sempre fora apaixonada por ela e não sabia. Aquela dor de vê-la chorando era que doía em mim também. 

De início, quando ela revelou tudo para mim, fora uma grande surpresa, eu fiquei confusa, desnorteada, como se só pelo fato de ser gay ela fosse se atirar pra cima de mim a qualquer instante. Mas, depois que o choque passou, passei a me preocupar com minha forma física e se ela me achava atraente.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Bate Forte o Coração LGBT

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Houve um período que eu tomei conhecimento de uma editora que publicava romances LGBT gratuitamente no intuito de fortalecer a cena na área, então, além de pensar em novas histórias dentro da temática, também pensei em incluir um romance lésbico no meu projeto de livro "Bate Forte o Coração". O papel caberia à uma nova personagem, Evelyn, bissexual declarada, prima de Andressa, melhor amiga de Nara, protagonista do romance escrito em formato de diário.

No início, Nara morre de ciúmes de Evelyn. Mas as duas começam a se dar bem e Evelyn se apaixona por Nara.  Nara também gosta dela, mais do que do seu namorado. Mas se preocupa com a reação das amigas e da família.  Um dia elas se beijam, e não restam dúvidas de que uma está apaixonada pela outra. Nara recorre a Loraine, que conta que já beijou mulheres, mas que nunca passou de curiosidade e atração física.

segunda-feira, dezembro 07, 2015

O Ódio e A Diferença

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É certo dizer que o texto jornalístico pode causar comoção se o autor for capaz de propiciar essa empatia entre personagem e leitor através da escrita narrativa. É natural do ser humano que, ao se deparar com a história de outra pessoa, tenha como reação imediata imaginar-se na mesma situação. Mas esta reação é a mesma indiferentemente do veículo em que a mensagem é transmitida, seja impressa ou digital? Segundo o artigo “O Poder da Emoção” (CJR, 2015), “o leitor entende o espaço bidimensional do impresso, já a internet é de uma ordem distinta”. Ou seja, tanto faz você se deparar com uma notícia que lhe choca num dado momento quanto no instante seguinte estar se entretendo com outra coisa totalmente diferente, colocando em segundo plano o que acabara de ler, sendo que no papel ficamos fixos àquele contexto por tempo suficiente para assimilarmos o fato, digerirmos o conteúdo, nos emocionarmos.

A tecnologia nos mantém ocupado o suficiente para nos isolarmos da convivência humana, talvez por isso nossa geração não saiba lidar bem com as próprias emoções. Diante dos casos recentes de vandalismo e marginalidade, o número crescente de assassinos a sangue frio, multidões querendo fazer justiça com as próprias mãos: isso é uma amostra de que as relações interpessoais precisam ser trabalhadas. O ódio é algo espontâneo e natural, um recurso do nosso corpo para alertar que algo está errado, parte integrante do nosso mecanismo de defesa, pela sobrevivência física e para preservar os valores que prezamos. O sentimentalismo mal resolvido pode resultar em grandes estragos físicos e emocionais, levado a calamidades.

Talvez todos tenhamos um pequeno monstro dentro de nós, esperando para ser alimentado, para crescer e se libertar. Começa com a raiva, um sentimento crescente decorrente de uma mágoa, um rancor guardado no peito que, evoluindo, exige uma reação imediata e por vezes desmedida, ganha forma, se personifica, e então escolhe um alvo, como um veneno fomentando a agressividade, a maldade e a vingança, despertando toda sorte de sentimentos ruins e desumanos. É nesse contexto que vivenciamos o século XXI.

quarta-feira, outubro 21, 2015

Momento Garota

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Juliana é amiga de Sue Ellen - filha da dona da revista Momento Garota -, se conheceram num evento onde ela trabalhava como modelo free lance. Agora que o pai faleceu e estava passando apertado em casa, sua mãe fazia o possível para usufruir ao máximo de sua beleza. Tudo o que ela queria era um emprego normal, assim Sue Ellen lhe deu o cargo de assistente da MG. 

Parecia o emprego perfeito. Tudo o que ela tinha que fazer era secretariar a presidência, atendendo o telefone, levando café na sala, passando qualquer problema que ocorria nos demais setores para conhecimento de sua chefe. Elisângela quase não aparecia na empresa, e só gostava que ligassem para seu celular se fosse de extrema importância. Sue Ellen era uma libertina, aparecia todos os dias, sintonizava uma estação de rádio, batia papo no MSN e passava horas fofocando com Juliana. 

Mas a melhor amiga de Sue Ellen e atual gerente de RH foi surpreendida desfavorecendo alguns operários e demitida por justa causa. A empresa virou um caos, só então Sue Ellen percebeu que nunca esteve no controle de nada. Sua sorte foi que Elisângela conheceu uma balconista enquanto usufruía de um clube local e, surpreendida com a eficácia da garota, convidou-a para ser sua assistente. 

Juliana tremeu nas bases, sentindo-se ameaçada. Fez um cálculo mental sobre o quantia tinha sido prestativa nos dois meses que estava ali. Bem, ela fazia seu trabalho. Estudara em escola particular e tudo mais, como uma balconista poderia ser melhor que ela? Mas era. 

Sofia aprendia as coisas com muita facilidade, era ágil em seu trabalho e tinha uma mesa extremamente organizada. Juliana detestava quando ela lhe pedia favores, afinal, ela estava ali há mais tempo, então era ela quem devia dar as ordens. Além disso, Sofia sempre parecia reparar nas falhas de Juliana, e isso lhe deixava muito estressada. Sue Ellen continuou sendo sua amiga, mas tudo que precisava pedia à Sofia. Era ela quem coordenava as equipes, sugeria estratégias, participava das viagens e eventos, vistoriava de perto cada departamento. 

Juliana passou a invejá-la e fazer o possível para que cometesse erros. Por mais que ela se esforçasse e tudo mais, era muito ingênua e boazinha para sacar as artimanhas de Juliana. Foi assim que ela conseguiu ser promovida à Assistente Sênior da Presidência, enquanto Sofia foi intitulada Assistente Júnior. 

Não era justo, Sofia sabia disso. Juliana não tinha a mesma capacidade de liderança que ela para lhe passar ordens. Tudo o que ela fazia, como fazia, estava errado, ela sabia que podia fazer melhor. Mas agora a hierarquia estava ali para lhe limitar. Não conseguia conviver vendo todo seu trabalho se desmoronando e não poder fazer nada a respeito. Por isso tomou a iniciativa de pedir demissão. 

Sue Ellen estarreceu. Ela precisava de Sofia. Mas não podia aumentar seu salário, se era o que queria. Também já havia notado que ela não se dava com Juliana. O que ela podia fazer? A mãe não ia gostar nada de saber disso. 

E, realmente, quando Elisângela soube virou uma fera. Pela primeira vez passou o dia na empresa, questionando os empregados, passando ordens para Juliana e dando broncas. O pior foi quando a gravidez inesperada de Sue Ellen foi anunciada e ela precisou ser afastada. 

Conviver com Elisângela era terrível. O trabalho dobrou, e com ela não tinha conversa. Juliana agonizou nesse tempo, mas achava que valeria a pena. Afinal, o cargo era dela, disso tinha certeza. Tentando imitar os atos de Sofia, passava ordens e supervisionava cada departamento. Mas, logo notou, eles gostavam de Sofia, eles não questionavam as ordens dela. Todavia, ninguém levava Juliana a sério, falavam mal dela pelas costas, e pareciam crer que a causa da saída de Sofia era sua. 

Não demorou muito para que Elisângela ligasse para Sofia e agendasse um encontro informal. Conversaram sobre tudo, inclusive sobre Juliana. Elisângela já havia percebido a invalidez da menina, mas confessava que tinha pena de mandá-la embora. Ela era um rostinho bonito sem nenhuma qualidade a mais. E sua filha, Sue Ellen, era imatura demais para o cargo de vice, não cumpria com suas responsabilidades. Além disso, ela se sentia velha e queria aposentar, mas como confiaria nas mãos de terceiros para cuidar da empresa? 

- Quero você de volta, Sofia. Vou passar a empresa para o nome de Sue Ellen e rezar para que o bebê lhe dê mais juízo. Quero que você assuma o cargo presidencial, pois tenho certeza que conseguirá manter a ordem por lá. 

Assim, triunfante, Sofia voltou para a Momento Garota com a promessa de que seria tolerante com Juliana, não podia rebaixá-la de cargo, mas não podia confiar nela como assistente. Assim, manteve seu cargo, mas contratou uma secretaria para auxiliá-la e, principalmente, fazer vista grossa em Sofia.

Memórias de Samara - Capítulo 1

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Era quase sete horas quando eu e Sofia chegamos da escola. Meu irmão, Maycon, estava no primeiro ano do ensino médio e estudava no período da manhã, de modo que já estava em casa. Sim, em casa, e não na rua jogando bola como qualquer garoto normal. Ele preferia estudar a maneira como os planetas se alinham ou o processo de transformar areia em vidro em seu quarto. 

- Mãe, cheguei – avisei. 

Minha mãe estava sempre em casa. Ela era uma manicure de residência, o que quer dizer que quando suas clientes não vinham em casa, ela ia até a casa delas. Parece meio pobre não ter seu próprio salão cor de rosa com um painel escrito “Rose Manicure”, mas no meu bairro as pessoas se sentiam mais acomodadas sentadas no sofá de casa enquanto fazem as unhas assistindo o canal de fofocas sobre a vida nos famosos na televisão. 

Sofia jogou a mochila em cima do sofá e cumprimentou a senhora Morato educadamente, depois se encaminhou para o seu quarto com um livro debaixo do braço. 

- Garotinha mimada e sem graça, tem apenas seis anos e se comporta como se já fosse mulher. Que tipo de criação essa pirralha esnobe recebe? – disse a senhora Morato, em um tom que eu nunca tinha ela ouvido usar antes. Enruguei a testa quando olhei para ela, afinal estava sorrindo e parecia que só eu tinha notado seu comentário maldoso. 

- Sofia, leve sua mochila e faça o dever de casa. O jantar está quase pronto, só vamos esperar seu pai chegar. – Falou minha mãe com uma voz monótona, estava concentrada demais no dedão do pé da senhora Morato. 

- Olá, Samara. Está tudo bem? – questionou-me senhora Morato, e só então percebi que continuava lhe encarando. 

Fiz que sim com a cabeça e voltei à atenção para meus deveres de casa do dia. Era uma quarta-feira e tive aulas de história, geografia e matemática. Eu detestava estudar. Sofia voltou para a sala com um ar entediado e pegou sua mochila. Ela não tinha dificuldades nenhuma para fazer seus deveres, lia tanto que se podia dizer que estava um pouco mais adiantada do que a turma de sua classe. 

- Como foi a prova de matemática, Samara? – perguntou minha mãe, sem desviar os olhos dos pés da senhora Morato. 

Ah, não, eu sabia que ela perguntaria sobre isso. Ao contrário dos meus adoráveis irmãos, eu era uma negação na escola, principalmente quando se tratava de números. Mas hoje parecia ter sido muito pior. Apesar de me esforçar ao máximo, não consegui me concentrar na prova. Ficava lendo os números em voz baixa tentando raciocinar, e toda hora a professora chamava a minha atenção dizendo-me para ler calada. Eu estava aflita, pois sabia que não conseguia ler em pensamento porque eu não conseguia ouvir meu próprio pensamento, se é que me entende. Sabe quando você pensa em milhões de coisas ao mesmo tempo e não consegue prestar atenção no que lê a sua frente? Então, era assim que eu me sentia. 

- Acho que fui bem. As aulas de recuperação estão me ajudando bastante. – menti. E no mesmo momento percebi que minha mãe sabia que eu estava mentindo. 

Não que ela tenha feito algo para eu perceber, manteve uma expressão neutra quando levantou seus olhos para mim, mas eles lhe denunciaram. Quando percebeu que eu lhe olhava de volta, baixou os olhos rapidamente para os pés da senhora Morato. 

- Prontinho, dona Neusa. – minha mãe sorriu para a senhora à sua frente e pegou um caderninho com capa estofada ao seu lado, fazendo somas mentalmente. – Sua conta está em trinta e cindo reais, vai quitar agora? 

Apesar de fazer unhas não ser um negócio lucrativo, minha mãe se dava ao luxo de deixar suas clientes pagar quando quisessem. A senhora Morato fazia seus pés toda semana por causa da unha do dedão que sempre encravava, mas ela só pagava no final do mês. 

Antes que ela desse sua resposta, me dirigi à porta e lhe abri para que um homem alto e magrelo entrasse. Ele era meu pai. Sorri abobada e joguei meus braços em seu pescoço, estalando um beijo em sua bochecha. 

- Oi, querida, tudo bem? 

Senhora Morato passou por nós e foi-se embora sem se despedir. Minha mãe já estava na cozinha dispondo os pratos na mesa. 

- Maycon! Sofia! Venham jantar! – gritou ela. 

- Rose, precisamos conversar. – disse meu pai, baixinho. 

Sentei-me à mesa e aguardei o restante da família fazer o mesmo. Maycon se sentou ao meu lado, os olhos baixos para o prato. 

- Oi, Maycon. – sorri timidamente. 

Ele olhou para mim e deu meio sorriso, depois encarou o ensopado em cima do fogão meio nervoso. Ele evitava falar comigo, e eu achava isso um tanto desconcertante, afinal, parecia mais um estranho do que um irmão. Mas eu podia compreendê-lo, afinal, estava com aquele olhar de novo. Olhos de garoto apaixonado, que fazia sua íris parecer mais escura. Ele não queria que ninguém soubesse. Os cabelos emaranhados cor de bronze entregava que estivera deitado em sua cama pensando bobagens esse tempo todo. 

Ainda me lembro de quando eu era mais jovem e Sofia ainda era um bebê. Ele brincava comigo o tempo todo. Esse tempo parece ter ficado num passado distante. Desde que sua cara encheu de espinhas, ele parecia outra pessoa. 

Mamãe e papai irromperam na cozinha e pelo rosto deles percebi que não estava nada bem. 

- Sofia! – gritou minha mãe, mais uma vez. 

Sofia finalmente apareceu e se sentou à mesa, pegando seu prato. 

- Já não disse para vir quando eu chamar? 

- Calma, mãe, estava só acabando um capítulo. 

Sofia adorava ler romances inapropriados para sua idade e guardava a lei de nunca interromper uma leitura no meio de um capítulo, vivia com os cabelos presos num coque e tinha que usar óculos de descanso para não piorar a vista. Mamãe estava brava e pouco se lixava para suas leis. Acho que ela e papai discutiram de novo. 

Começamos a comer silenciosamente ouvindo o som do noticiário vindo da TV. Assoprava minha sopa antes de levar cada colherada à boca e prestava muita atenção no prato para poder separar os legumes que eu não gostava. 

- E daí que o chefe está recrutando novos operários? Josiel é experiente e está nessa empresa há mais de cinco anos. Não vão demiti-lo. – disse minha mãe, referindo-se ao meu pai. 

Levantei a cabeça para ver com quem ela falava, mas todos pareciam envolvidos em suas sopas, inclusive papai. Voltei a comer. 

- Como se a profissão de manicure pudesse sustentar a família caso eu ficasse desempregado. Temos que ficar com os olhos abertos. – resmungou papai. 

Dessa vez não levantei a cabeça, certa de que não era da minha conta. 

- Não sei por que essa neura! Está apenas com quarenta e cinco anos. Não é um velho. Não é mesmo. – minha mãe fungou. 

- E o futuro das crianças? Se sacarmos mais algum dinheiro da poupança não sobrará quase nada para eles fazerem faculdade. E quero que meus filhos estudem para não ser como eu e Rose. 

- Eu acho que está na hora de Maycon arrumar um emprego. 

Eles pareciam falar mais alto, como se estivessem perdendo a paciência. Eu detestava discussões na hora do jantar, mas Sofia e Maycon pareciam não se importar. Sofia estava absolvida no caso de Conde Luís e Madalena e Maycon comia apressadamente para voltar ao quarto. 

- Parem! – gritei. – Por favor, não gosto quando vocês discutem. Papai, você não vai ser despedido. Mamãe, pare de fazer unhas fiado. Eu não aguento mais isso! 

Eles me encararam com uma expressão de choque no rosto. Aos poucos meu nervoso foi se dissipando e dando lugar à angústia. Detestava quando eles me olhavam desse jeito. 

- Ah, não. Eu fiz de novo, não fiz? 

E, pelo olhar de pena de mamãe, percebi que fiz. 

- Vocês sabem que eu não consigo evitar. 

De repente, minha mente se inundou de comentários sobre a novela das nove que de repente todos pareciam achar muito importante. Tudo isso para que eu não prestasse atenção com o que eles realmente estavam preocupados. 

Ah, sim, eu podia ouvir os pensamentos deles.

sexta-feira, setembro 04, 2015

Manicure de Luxo

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Está difícil encontrar boas profissionais em unhas. Muitas manicures trabalham em casa, por gosto; para agregar a sua função principal como cabeleireira, em salões de bairro ou trabalha nos salões dos outros para contar com uma renda extra. Todavia, não buscam investir na área, fazer algum curso de formação ou aperfeiçoamento ou até mesmo comprar as ferramentas certas para o ofício. Acredito que isso se aplica a outras profissões da estética, mas a pauta aqui são as manicures. Li uma vez que o mercado de beleza é um dos que mais fatura no Brasil, mas, sinceramente, também é um dos que mais peca quando se fala em profissionais qualificados.

Certa vez, cansada de jogar dinheiro fora, procurei um centro de estética especializado para fazer minhas unhas pelo dobro do preço que eu pagaria num salão de bairro. Cheguei no horário marcado, a recepcionista me pediu para preencher uma ficha de cadastro e aguardasse. Em seguida, me levaram para fazer um tour no espaço antes de me deixarem na sala da manicure, onde mais uma vez me aconcheguei no sofá para esperar a minha vez.

Logo de cara, surpreendi-me por que ela era uma senhora. Dificilmente vejo manicures com mais de cinquenta anos atuantes no mercado, mas o preconceito traiçoeiro não demorou a bater na minha porta: “quanto mais velho, mais experiência tem, não?”. Resolvi fechar os olhos e entregar minhas frágeis mãos àquela doce senhora, e a primeira coisa que ela me contou foi que começou a trabalhar depois que se aposentou, para matar o tempo.

Começo sempre da direita para a esquerda! Da direita para a esquerda!", repetia sem se cansar. Do mindinho da mão direita para o dedão. Do dedão da mão esquerda para o mindinho.

Terminado a preparação básica das unhas, ela me mostrou sua vitrine de esmaltes. Uma espécie de mostruário de rodinhas com quase um metro de altura, os esmaltes enfileirados e organizados pela marca e por ordem crescente da cor.

Quase uma hora depois, chegou a vez dos pés, e esta foi ainda mais aterrorizante. A senhorinha havia comprado umas geringonças em São Paulo para facilitar seu trabalho e deixar a cliente mais confortável. Então, deitei-me numa maca, ela se apossou de um capacete com uma lente de aumento que se encaixava sobre seus óculos e começou a lixar minhas unhas. Seus olhos ficavam enormes naquele treco e eu tive que conter para não cair na risada.

Terminado o serviço, preenchi outra ficha de satisfação, avaliando o trabalho da manicure e da clínica. Fui até o caixa para pagar a conta com a minha notinha e antes de sair, levei um saquinho com panfletos promocionais, entre outras coisas. Não voltei mais. Mas a ficha de inscrição me rendeu ligações constantes durante alguns meses.

terça-feira, agosto 25, 2015

Retratos da Vila Real #1

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Vamos chamá-la de Silvia, uma das personalidades presentes na Vila Real, em Várzea Paulista/SP. Trinta e sete anos, três ou quatro filhos, casada a nove anos. O pai era professor de matemática, tem casa própria na Vila Arens, um bairro bom de Jundiaí, estudou no Divino Salvador, escola particular. A mãe criou os quatro filhos sozinha depois que ele se entregou ao alcoolismo e largou a profissão.

Silvia cresceu com raiva do pai. Não entendia por que ele fizera isso com a família. Passou a odiá-lo e só lhe perdoou quando ela mesma conheceu o vício. “Coitado!” pensa ela, hoje. Começou a dez anos atrás, ela já era mãe. Hoje as crianças são criadas pela avó, que as trata com carinho sem nunca deixar de se preocupar com a filha.

“O mais longe que cheguei foi seis meses... Fui parar em Porto Alegre, mais perto da Argentina do que de casa”

Até convida ela para ir à igreja. Silvia acredita em Deus, toda a sua família é Testemunha de Jeová, pode lhe dar essa base religiosa. “Só Deus na minha vida”, diz ela, desolada. E completa: “Ele me ama muito...” se não num estaria mais aqui, quis dizer, mas omitiu.

Conheceu Júlio à procura de drogas, com uma amiga. Ele poderia lhe fornecer algum suprimento. Três anos depois, estava grávida, novamente. Apesar do filho não ser dele, Júlio aceitou cuidar da criança, que Silvia chama de “nenê”. Às vezes, Silvia sai para “fazê uns corre” (SIC) para usar drogas e não volta tão cedo. Já passou semanas, até meses fora de casa, sem dar sinal de vida. “O mais longe que cheguei foi seis meses... Fui parar em Porto Alegre, mais perto da Argentina do que de casa”, conta ela. “Ele é um doido caseiro, eu sou uma doida rueira”, completa.

“Já consegui sair com mais de dez peças de picanha do mercado”

Juntos, eles dividem as contas da casa, cada um a seu modo. “Sempre fui muito boa nos furtos”, diz ela. Dinheiro não era problema, comida também não. “Já consegui sair com mais de dez peças de picanha do mercado” orgulhou-se, e desta vez não foi pega. Mas, num caso recente, acabou presa. Hoje, Silvia tem receio de roubar: “Tenho medo de voltar pra cadeia”. Nem neste momento a mãe esqueceu-se dela, foi lhe visitar e tudo. Com carinho, ela fala do amor que tem pela mãe.

Quando questionada sobre sua experiência de trabalho remunerado, relata que passou por muitos serviços, mas nunca ficava muito tempo em cada um. Trabalhou em firmas e num restaurante. “Depois que você entra para as drogas é difícil se adaptar”, não dá pra ter uma rotina. Mas Silvia nunca recorreu à prostituição, nem quer. “Isso eu não admito”, sinto firmeza na sua voz.

“Uma vez minha mãe me encheu de pau, dos pés à cabeça. ‘Se o pau for me curar, bate mesmo’, eu disse pra ela”

Dez anos nesta estrada, mas a esperança de sair dela ainda está presente em seu coração, seja por meio da religião ou com a ajuda da família. “Uma vez minha mãe me encheu de pau, dos pés à cabeça. ‘Se o pau for me curar, bate mesmo’, eu disse pra ela” (SIC). Silvia consegue ficar, no máximo, três dias sem usar drogas. Mas, quando começa, não consegue parar. “Essa coisa de fumar um, é mentira! Eu não acredito. Quando você experimenta, a primeira vez, você já sai fora de si. Não é mais você”.

Cabelos crespos, curtos, os lábios estourados, já perdeu os dentes da frente. Mas ela não é magricela, tem olhos grandes, muito bonitos. Evita o uso de gírias e fala com propriedade sobre a família, sobre o Deus que conhece e cultua. Talvez, a única pessoa capaz de salvá-la é ela mesma, ela só precisa perceber isso, antes que seja tarde demais.

Obs. Os nomes reais foram omitidos para preservar a identidade dos entrevistados.

segunda-feira, agosto 17, 2015

Cabelo Trançado e Vestido Rodado

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Houve um momento em minha vida em que as crianças andavam pela rua com os pés descalços e sujos de terra. Era comum ir para a escola a pé, prender o cabelo numa trança e arrastar a mochila de rodinhas morro acima. Final de semana era dia de piscina, parque ao ar livre e andar de bicicleta na praça da cidade. Pra não dizer que não éramos iniciadas neste universo digital, havia a casa do Adão, onde ele disponibilizava uma televisão, videogame e alguns pufes e cobrava por hora pra jogarmos Sonic, Super Mário Bross, Pac-Man, os clássicos.

Talvez seja por que eu cresci numa cidade pequena e campestre de Minas Gerais, mas quando retornei a minha terra natal, aqui em São Paulo, fui surpreendida com uma realidade diferente, apavorei-me. Nove anos, apenas, mas as garotas da minha nova turma escolar achavam ridículo que eu trançasse os cabelos. Elas já haviam beijado... na boca. E minha única companhia ficou sendo os livros ficcionais da biblioteca velha da escola. Foi aí que parei no tempo, recusava-me a seguir a onda daquelas garotas metidas-à-besta.

A coisa só mudou quando me apaixonei pela primeira vez, um vizinho de porta, dois anos mais velho que eu. Era ciclista quase-profissional e também nunca tinha “namorado”, se é que podemos nos referir assim a casais que andam de mãos dadas e trocam beijos tímidos. A vaidade bateu à porta e eu a deixei entrar: tirei as sobrancelhas na pinça, depilei as pernas, abandonei o batom rosa e aprendi a usar lápis de olho. Doce ilusão dessa meninada que pra crescer tem que parecer mulher feita. Tem que ter seios. Se não tem, coloca meia dentro do sutiã, que exige que venha com bojo.

Foi um romance gostoso, primeiro amor pra recordar com carinho. Entristece-me ver as garotas dos dias de hoje se desfazendo de um bem tão precioso: seu amor próprio. Esquecendo-se de ser criança, deixando de lado o prazer da infância. Entregando a virgindade como se si livrasse de uma vergonha. Antecipando o casamento, para não perder a vez, ou o homem. Abrindo mão dos estudos, de buscar uma profissão remunerada, de ser mulher independente.

Nem vestido rodado usam mais. Shorts jeans, justo e curto, é melhor para dançar funk.

quarta-feira, março 11, 2015

Como foi?

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Foi bom.

Me fez sentir como nos velhos tempos, quando eu era uma pessoa feia e vazia, me lembrou como era viver sozinha. Uma ou dias paquerar, babacas que não conhecem minhas feridas, mas que, em outros tempos, seriam pessoas ideais para uma fugira.

Não preciso mais fazer isso.

Quer dizer, acho que não preciso.

Apesar de não compartilhar meus segredos, hoje eu tenho você, na saúde e na doença. Apenas. Todavia, talvez fosse melhor adotar um estranho de vez em quando, pra falar da via, fantasiar histórias, ouvir de novo aqueles falsos elogios. Nós sabemos que se trata de mentiras, mas massagear o ego é bom, faz bem pra autoestima.

Quem disse que quando se ama um casal se completa?

terça-feira, janeiro 20, 2015

Aula Experimental

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Estava numa parte importante da história. Um momento decisivo entre o imperador e a camponesa. Ele devia abrir mão de sua herança para se aventurar com uma órfã? E ela, seria capaz de deixar o vilarejo onde cresceu para tornar-se uma dama? Era tão jovem, tão imatura. Ele também, não queria dar ouvidos ao pai.

- Lorena! Larga esse livro, você tem uma consulta agendada com o Dr. Cosme daqui à uma hora. Sairemos em dez minutos!

Minha mãe não era nada a favor do meu hábito de leitura. Ela se irritava com o tempo que eu passava entre os livros. Tinha de concordar com ela, em partes. Não tinha muitas amigas e detestava assistir televisão. Meu amigo era meu livro. Era através da literatura que eu conhecia o mundo, e adorava viajar por culturas diferentes, em séculos variados... Por isso sempre tirava a nota máxima em história, língua portuguesa, geografia... Notas medianas em matemática, física e química. Educação física não, era péssima.

- Onde pensa que vai com essa saia indiana? Pelo amor de Deus, volta lá e coloca e jeans. E passa um lápis, um batom, você está parecendo um fantasma!

Eu odiava usar jeans. Odiava maquiagem. Qual o problema em manter a naturalidade? Achava lindo o contorno das minhas sobrancelhas. As meninas da minha idade usavam maquiagem para cobrir as imperfeições da face. Esconder uma espinha, fazer os olhos parecerem maiores, os lábios mais volumosos. Eu não tinha necessidade disso.

Abri as gavetas e peguei o primeiro jeans da pilha desorganizada. Fiz um coque com os cabelos, contornei os olhos com lápis preto e os lábios com gloss. Por último, pendurei um brinco com uma pena colorida em uma das orelhas. Pelo menos uma pitada de quem eu realmente era.

- Bom dia mocinha, como você está? – ele sorriu, mas a boca apresentada poucos dentes. Senti calafrios.

- Estou ótima, Dr. Cosme. Mas minha mãe insiste que eu faça esses exames de rotina.

- Em que período você está? – encarei seus olhos sem compreender. – Você já tem quatorze anos, Lorena. Seu corpo está em transição para o amadurecimento. E isso mexe muito com seus hormônios. É normal que se sinta confusa, irritadiça e sensível. Mas, para que eu possa te ajudar, preciso que você seja sincera comigo.

- O que foi que minha mãe disse ao senhor? – perguntei, entediada com aquele lero-lero.

- Não importa o que ela disse ou deixou de dizer, eu estou vendo. O que significa essas espinhas no seu rosto? Posso enxergar a oleosidade daqui, mesmo que eu tire os óculos. E esses fios grossos e sedosos? Seu cabelo já foi mais bonito.

- Ok, já entendi. – dei o braço a torcer. – Eu estou tendo dificuldade para dormir. Perdi muito peso nos últimos meses. E ás vezes sinto uma tristeza horrível, que parece não ter fonte.

Dr. Cosmes escrevia aceleradamente em seu bloquinho. Aquilo me dava uma agonia...

- Preciso de alguns exames. Vamos ver se está com alguma alteração hormonal. De qualquer forma, evite comidas gordurosas e procure uma atividade física para fazer.

- Mas eu estou abaixo do peso!

- Isso mesmo. Você precisa ganhar massa muscular. E exercitar-se um pouco vai fazer bem para o seu humor.

Bem, se ele estava falando. Naquele mesmo dia eu me inscrevi para a ginástica feminina. Duas vezes por semana, caminhava até a academia vestindo legging, shorts jeans, top e uma bata. A sala tinha mulheres bem mais velhas, quase nenhuma garota da minha idade. Mas eu preferia assim. A instrutora não pegava nada leve. Começava a suar logo no aquecimento, o alongamento me deixava com os músculos em frangalhos e o relaxamento me fazia querer dormir, o corpo retornando ao seu estágio inicial.

O que me fazia relaxar era a música de fundo, algumas eletrônicas populares e um pouco de jazz. As melhoras eram visíveis: me sentia mais disposta e com um apetite aguçado. Ao final daquele ano, no dia da confraternização, me dei conta de que não havia feito amizade com ninguém. Senti-me exclusa na festa organizada e, depois disso, nunca mais voltei às aulas.

- Que tal se você fizer aulas de dança, Lorena? Não quer se inscrever?

- Até parece. Não tenho o menor jeito! Lembra das aulas de country?

- Filha, você tinha oito anos! Hoje é diferente. Vamos lá, eu tenho acompanho!

Não falei brincando, não levava o menor jeito para dançar. Arrisquei-me na turma de country do município e fiquei sem par para me apresentar, acredito que propositalmente. Na escola, fiz testes para dançar jazz na formatura, mas o máximo que consegui foi o papel de anjo. Anjo não se mexe, não canta nem dança. Só tinha de ficar lá, com uma palma contra a outra, sorrindo numa roupa ridícula, feita de isopor e glitter.

- Lamento, todas as aulas já estão com as turmas esgotadas. Mas está começando uma turma nova de Dança do Ventre, gostaria de fazer uma aula experimental? – disse o recepcionista, claramente se desculpando.

- Dança do Ventre não, mãe! – arg, era brega demais!

- Por que não? Pode ser legal! – sabia que não tinha chances de correr dali.

- Tudo bem, mas ninguém pode saber! Ta ouvindo?

Sentamo-nos em círculo. Havia mulheres de todas as idades, desde crianças à senhoras, a maioria fora de forma. Uma senhora na faixa dos quarenta entrou na sala descalça com um lenço de moedas amarrado nos quadris. Mas não era possível que fosse a professora. Ela tinha cabelos curtos e seios fartos. As dançarinas não eram magras, com cintura fina e cabelo cumprido?

- A Dança do Ventre é uma arte milenar originária do Egito. Ela traz muitos benefícios ao corpo, à mente e ao espírito. Desperta a sensualidade da mulher e contribui com diversos tratamentos para a saúde e autoestima. – dizia ela, mas os buchichos não permitiram que fosse em frente. – Eu vou mostrar a vocês.

Um pouco nervosa, ela se dirigiu ao aparelho de som e colocou uma música árabe. Todos se calaram para vê-la dançar. E quando ela começou, não parecia a mesma pessoa. A postura, o olhar, a leveza das mãos: era encantador. De repente, não importava se ela era baixa ou alta, gorda ou magra, ela era linda: pura e simplesmente.

- Vamos dançar?

Todas nos colocamos de pé imediatamente. A professora aumentou o volume do som e começou a nos guiar, ensinando passo a passo de cada movimento, andando entre a gente para corrigir uma por uma. Eu estava impressionada com a minha capacidade. Não imaginava que sabia fazer aquilo com o quadril. Não tinha noção do quanto eu era boa! E eu sorria. Estava feliz comigo mesma.