quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A mulher em sua casa


Passava os dias sozinha, resguardada em seu lar. Talvez, por este motivo, fosse comum que sua mente começasse a alimentar algumas alucinações. O pior era quando ele chegava, exausto, querendo apenas descansar, e ela quase implorando por um pouco de atenção. Estaria ela sofrendo de solidão?

Voltar para a casa dos pais estava fora de cogitação. O irmão entrava em contato, vez ou outra, preocupado com seu bem estar. Aos poucos, viu seus horários sendo invertidos. Não sentia sono a noite, acordava às duas da tarde, trabalhava até às oito e passava a madrugada tentando se descontrair um pouquinho. Acho que isto não está certo.

Para compensar as jornadas duplas em casa, contentava-se com uma taça de vinho, fechava as cortinas e aumentava o volume da música. Nada de almoços ou jantares. E, assim, conformou-se com este estilo de vida, mesmo não sendo saudável. Alguns meses se passaram antes de descobrir que havia outros como ela.

Uma amiga batera em sua porta. Fazia tanto tempo que não recebia visita que não se deu conta dos móveis empoeirados, do piso pegajoso ou da comida mofando sobre a mesa. Também não se deu conta do quanto empalidecera, de quantos quilos perdera ou de como gritava ao falar, atropelando as palavras. Uma selvagem.

Sair à forte luz do sol era quase uma tortura, os olhos lacrimejavam, a pele ressecava e seus cabelos reclamavam. Desta forma, deixou de receber convites para eventos e, quando surgiu a ocasião, percebeu que suas roupas já não lhe serviam mais. Não é por menos que o marido não lhe olhava com aqueles olhos carnívoros e o espartilho quebrado jazia no fundo da gaveta. Acabou o tesão.

Conversas vazias sobre o cotidiano alheio preenchiam a noite do casal. Não faziam mais planos para o futuro, não sentavam-se à mesa para as refeições, nem deitavam-se juntos no mesmo horário. Pequenos detalhes que faziam parte da rotina e ficaram para trás. Os finais de semana se resumiam em sentarem-se no sofá, frente à televisão. Pegar férias significava conseguir um adiantamento para quitar as contas. Que vida chata, não?

Foi assim que os personagens começaram a surgir em sua mente, alimentados pela sua imaginação, fruto do tédio que sofria continuamente. Descartado a ideia de terem filhos, começou com um animal de estimação, em seguida veio uma amiga e depois o amante. Era com ele que sonhava. Dócio, carinhoso, atencioso, ouvia suas queixas e sussurrava palavras sujas em seu ouvido. Era a personificação da solidão.

"Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar, que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo."  Clarice Lispector

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