terça-feira, 14 de junho de 2016

Sem-Teto


A família se foi, derrubaram a casa e abandonaram o Pretinho, mas ele continuou ali porque acreditava que aquele era o seu lar, tinha esperança de que aquelas pessoas que ele acreditava ser sua família retornassem.

Quando chovia, se escondia debaixo do teto onde um dia foi um banheiro. Quando sentia frio, se enroscava nos panos velhos deixados ali. Os vizinhos trocavam sua água e deixavam restos de comida para ele.

Mal nutrido, Pretinho começou a definhar, mas mantinha o brilho de menino no olhar. Até tentaram lhe adotar, mas Pretinho não quis arredar o pé dali, pois ali era sua casa, e ele esperava pacientemente sua família retornar.

Um dia apareceu algumas pessoas estranhas, avaliaram o terreno, quanto trabalho daria para limpar. Um menino rechonchudo tentou colocar o Pretinho para fora, debaixo de pontapés. Acuado, o Pretinho se escondeu, mas foi só a família ir embora que ele retornou para o que acreditava ser seu lar.

Noutro dia, apareceram as máquinas e derrubaram o único teto sob onde o Pretinho dormia. Ele ficou mais triste do que bravo, era muito manso e dócil para sentir qualquer resquício de raiva. Mesmo assim, ele continuou passando as noites no entulho que um dia chamou de casa.

Certa manhã, fui levar comida para o Pretinho, mas ele não estava mais lá. Ou levaram ele embora, contra sua vontade, ou morreu de solidão. Não sei o que seria pior. Ou ainda, talvez, quem sabe, morrera feliz em seu lar. No que você prefere acreditar?

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