quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

As Namoradas do meu Pai

Meu pai é bonito, charmoso, atencioso. Cozinha bem, cuida da casa (à seu modo). Mas, acima de tudo, é um bom ouvinte. E o que mais tem por aí são mulheres carentes de atenção... Não gosto de termos como “mulherengo” ou “pegador” para descrever meu pai, pois soa como se ele desvalorizasse as mulheres e não é isso que acontece. Ele cuida delas. Mas ele não pode abrir os braços para qualquer uma, principalmente se ela for menor de idade, usuária de drogas ou casada. Espero que com suas desventuradas experiências passadas ele tenha aprendido a lição...

Amores, ele teve poucos, mas mulheres, muitas. Minha mãe não foi a primeira e muito menos a última. Todavia, ela foi especial. Ainda hoje, depois de mais de 15 anos separados, eles se chamam de “pai dos meus filhos” e “mãe dos meus filhos”. É isso mesmo: nenhum dos dois teve filhos com outros parceiros, e não foi por infertilidade, mas por cuidado, precaução. Proteção, sempre! Há não ser por sua terceira (?) esposa, que durou em média três anos. Com esta ele quis filhos. Ainda bem que não teve.

Antes da minha mãe houve o seu grande amor. Meu pai tinha o belo hábito de escrever poesia. Muitos destes textos eram endereçados ao seu amor ou à minha mãe. Mas a terceira esposa se desfez de todos os cadernos, o que o deixou muito triste. Entretanto, com a era das redes sociais, meu pai aprendeu a brincar com as palavras, formar desenhos, compartilhar gifs. E não há nada mais gostoso que receber elogios pelo que escrevemos! Assim, ele semeia versos, citações e versículos bíblicos para todas suas amigas virtuais. Todas são especiais. Ele nunca deixa um aniversário para trás!

Com as redes sociais também vieram as namoradas virtuais, dos mais diferentes lugares. Ontem mesmo, uma amiga distante ligou pedindo consolo, pois seu ex-marido estava num leito de hospital. E também tem as que moram mais próximo, e com essas dá para marcar encontros. Todas conhecem seu endereço e são bem vindas para visitá-lo, seja de passagem ou para se hospedar temporariamente. Teve aquela de Santos que quase virou noivado. Engana-se quem pensa que ela é praieira. Menina recatada, evangélica e... virgem. Viram-se poucas vezes, mas conheceram a família um do outro e fizeram planos para o futuro. Ele a queria como companheira, mas avisei-lhe “você não está casando só com a filha, mas com a mãe também!”. E acho que foi essa mãezona que acabou ruindo o relacionamento.

Antes da terceira esposa, lembro-me de bem poucas. Mas a que mais gostei foi uma aspirante a cabeleireira que passou uns dias morando conosco, pois estava tentando se divorciar do marido. Era mais uma amiga da família do que namorada, mas considerando que nem prima escapou, então ela pode entrar pra listinha. Ela criticava tudo o que eu fazia: desde limpar a casa, cozinhar ou cuidar de mim mesma. Mas era ótima para conversar sobre garotos! E eu não ficava tímida para fazer perguntas íntimas para ela. Estava no pico da adolescência, com aquela curiosidade obscena de querer saber das coisas.

Depois da terceira esposa, teve uma senhora que parecia mais a mãe dele. Ficava preocupada com sua alimentação, deixava a casa um brinco, mas morria de ciúmes do computador. “Você não dá atenção para mim!”, reclamava ela. Depois descobrimos que ela era mais velha que ele. Todavia, por outro lado, ela era dócil e carinhosa. Ainda assim, suas expectativas foram quebradas e, quando viu que não daria em nada, largou tudo e foi-se embora.

Agora eu cresci e não é a mesma coisa. Todas queriam conhecer a garotinha bonitinha do papai. Agora ficam sem graças e com um pé atrás. Talvez por que já basta a irmã ranzinza dele, que põe suas namoradas contra a parede. Nesta semana mesmo, ele estava de encontro marcado, mas até agora só tomou bolo. Aiaiai, eu havia me esquecido de como é casa de homem solteiro, especialmente meu pai. Mas, sinceramente, depois da experiência de ter MÁdrasta, prefiro mil vezes meu pai solteiro!

A Chris* não deu as caras, mas amanhã virá a Mi*. Perguntei a ele como a Mi era e a única descrição que ele me deu foi “ela usa óculos”. Acho que isso já diz tudo! Mas eu queria mesmo era conhecer a Chris, gostei dela. Arruma a casa, cozinha bem, ajuda com as contas. Ajudar com as contas é quase que um requisito para ser namorada do meu pai.

Não duvido que ele chegue à casa dos 60 com uma namorada de trinta, mesmo que eu me negue a dividir minha herança. Meu irmão não acha nada bonito esse comportamento do pai, apesar dos dois se parecerem muuuuuito. Não é que eu aprove, mas aprendi a aceitá-lo e amá-lo deste modo, desde o dia em que ele me disse que nenhuma mulher ocuparia meu lugar, “as mulheres podem ir e vir, mas você será minha filha para sempre”. sz


* Os nomes reais foram trocados para conservar as identidades dos personagens.

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