sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Apenas um Almoço

Saí do consultório com a receita na mão. Um misto de sentimentos contraditórios se confrontava dentro de mim. Até aquele ponto, tudo não passara de um relacionamento extraconjugal, mas, com um bebê a caminho, a situação tomara outras proporções. Precisava fazer alguma coisa, precisava colocar um ponto final nisso. Mas primeiro eu precisava que ele assumisse uma posição. E meu marido tinha que aceitar o divórcio, facilitar as coisas. Não aguentava mais toda aquela ladainha! Há tempo nosso casamento esfriara e ele sabia bem disso.

Liguei para meu filho.

- Preciso que você fique com sua irmã, tenho que sair.
- De novo? Aonde a senhora vai?
- Não é da sua conta, não se intrometa na minha vida. E não fale nada para seu pai! – frisei.

Prestativo como sempre, ele deixou a namorada e veio para casa. A garota poderia esperar, o assunto aqui era mais urgente. Ela já sabia de tudo, só não enxergava os fatos. Naquela semana mesmo havíamos conversado. "Estou sem dinheiro, tive que fazer uma caridade...", disse eu, quando ela tentou me vender mais uma das suas peças artesanais. Claro que ela não imaginava que eu me referia a seu pai. Fazia depósitos regulares em seu nome para ajudá-lo a pagar a pensão da filha, já que ele tinha que perder o dia de trabalho para me ver. Não é como se eu estivesse lhe comprando, só não queria que ficasse preocupado com horários.

Mais ou menos há um ano e quatro meses atrás havia discutido com sua filha e meu filho sobre nossa amizade. Ela queria que eu parasse de trocar mensagens com ele, mas resisti. "Se ele der em cima de mim, não darei corda, não se preocupe.". Doce ilusão. A coisa começou assim, como um bate papo, falávamos sobre trivialidades da vida. Até marcarmos o primeiro encontro, sem compromisso, um almoço. Ele era atencioso, me comprava presentes e exaltava minhas qualidades. Ele me fazia sentir jovem outra vez. Não demorou para que eu sentisse necessidade da sua presença, da sua voz, do seu toque. Ele dizia que me amava, que queria que eu fosse sua mulher.

"Vai dar tudo certo!" sorri para comigo, com a lembrança feliz fresca na memória e um friozinho crescente na barriga. Ele poderia até gostar da ideia. Poderia ser o pai que nunca foi para sua filha e eu seria a madrasta perfeita. Gostava dela, era uma boa garota, apesar de eu não considerá-la a mais apropriada ao meu menino. Ele tinha uma amiga de infância que eu sempre desejara como nora. Ela havia se casado e tomado outros caminhos. Mas nos reencontramos nos ensaios de quarta e fiquei sabendo que estava em processo de separação. Talvez houvesse alguma chance, afinal.

Ah, a música. Aprender a tocar um instrumento foi, talvez, o primeiro passo para me sentir autoconfiante e ousada o suficiente para fazer tudo o que fiz, para me sentir livre e viver um amor proibido. As aulas de música também me trouxera boas amigas. A mais próxima tinha um casamento aberto e me convencera de que estava tudo bem, eu não precisava me sentir culpada. Pena que o meu marido não se interessou por ela!

À espera do táxi, liguei para ele.

- Precisamos conversar. Você pode me encontrar?
- Quando?
- Hoje.
- Eu tenho que trabalhar...
- Eu ajudo você, fala de quanto precisa que eu deposito. Chegarei por volta da meio dia, nos encontramos no mesmo lugar.
- Tudo bem, mas não posso demorar muito.

Essa era uma das vantagens de namorar um comerciante: ele podia fechar a sua loja quanto bem quisesse, ainda que isso estava me custando deixar as minhas clientes na mão e ainda ajudá-lo financeiramente. Mas valia a pena, ele me dava toda a atenção que eu precisava. Ao contrário do meu marido, que priorizava o trabalho e estava sempre viajando.

Não é que eu não o amasse mais. Ele era um excelente pai de família e eu precisava fazer algo a respeito. Nosso casamento era comum demais, perfeito demais. Sem vícios, sem ciúmes, sem traição. Filhos exemplares, uma vida estável, casa própria, carro na garagem. Eu era uma mulher independente, uma profissional autônoma, uma católica devota, mas ainda tinha que cuidar da casa, ser uma boa mãe, uma boa esposa. Já era hora de jogar tudo isso pro alto, viver um pouco.

Chegamos pontualmente em nosso restaurante preferido. Logo ao avistá-lo, senti-me estranhamente excitada. Eu o desejava e ele sabia disso. Não tanto pelo homem que ele era, poderia ser qualquer um. Era mais pelo sabor do perigo. Sentia-me devassa. Não nos demoramos na conversa e fomos para o motel mais próximo, atropelando as horas, mais uma vez.

Ao se despedir, ele saiu todo apressado, pois estava atrasado para um compromisso e pela primeira vez me senti usada. Cheguei a minha casa quase noves horas da noite, meu filho havia cuidado da janta e inclusive botara a casa em ordem. Há tempo eu deixara os afazeres domésticos de lado. Em breve, meu marido chegaria do trabalho, me daria um beijo estalado nos lábios e se refugiaria no quarto, alegando estar cansado. Era sempre a mesma coisa. Esperei que meu amante ficasse online para continuarmos a conversa. Aliás, era um alívio que meu marido não se interessasse por redes sociais.

"Precisamos decidir", disse eu.
"Decidir o quê?"
"Sobre a gravidez. Preciso da sua ajuda."
"Eu vou cuidar de você."
"Você viu a receita, não tenho dinheiro para comprar remédios e não posso pedir pro meu marido. Já basta eu estar usando o convênio dele."

Esperei. Esperei. Mas ele demorou a responder. Impaciente, tornei a pressioná-lo. Às vezes era necessário recorrer a diferentes meios de comunicação.

"Você vai me ajudar?"
"Tenho minhas contas para pagar, me desculpe."
"Mas quando você precisou de mim eu te ajudei!", quis chorar.
"Eu sei, anjo."
"Para de ser egoísta. Você deveria dar valor às pessoas que realmente te amam."

Mas estava falando aos ventos, pois ele não me dava ouvidos.

Uma semana se passou e o natal se aproximou. Meu filho e a namorada passariam a véspera na casa dele. Apesar de sentir-me enciumada, incentivei-os. "Quero que olhe para meu filho e se lembre de mim. Queria estar aí, mas pelo menos terá um pouco de mim com você e um pouco de você comigo.", disse eu, lamentando o infortúnio. “Mesmo longe, estarei de olho em você! Se comporte” reforcei.

Tinha esperanças de que, no próximo natal, estaríamos juntos, mas já não me sentia tão segura assim. Meses atrás, eu havia tomado a decisão de que não desistiria dele. Estava apaixonada. Não por ele, mas pelo que a gente vivia. Então, quando a coisa desmoronou, a insegurança bateu na porta e me dei conta... ainda que não quisesse acreditar, eu estava sozinha nessa.

Foi no sábado à noite após o natal. Recebi uma mensagem curta do meu amante me informando que eles descobriram. A menina leu nossas conversas no celular do pai. Intrometida. “Mas o quanto eles sabem?”, questionei. “Tudo”, foi a resposta.

Passei o dia em agonia, esperando. Em breve meu filho entraria pela porta, me colocaria para fora de casa e minha vida estaria arruinada. Eu precisava pensar num plano, preparar minha defesa, mas nada me vinha à mente. Esperei, esperei. Mas ele não apareceu, disse que ficaria na casa da namorada. Um medo repentino tomou conta de mim... Ele não vai mais falar comigo. Ele não vai mais voltar pra casa. Ele me odeia.

Segunda-feira. Ele chegou do trabalho e passou por mim direto para seu quarto, sem dizer nada. O que vi em seus olhos me apunhalou: estava preparada para tudo, menos isso. O desprezo. A decepção. E tudo o que passei com ele, havia esquecido?

- O que você sabe? – questionei. Ele parecia frio e distante. - Não importa. Você não tem provas.
- E se eu tiver? – encarou-me e me senti encolher de humilhação.
- Conta! Vai lá, conta pro seu pai! Ele ficará contra você, isso eu garanto. – Intimidei-o, tentando soar ferina.

Mas ele se manteve implacável. Sem retrucas, apenas o olhar de ódio. Com quem aprendera isso?

- Vou me matar. Não aguento mais! Não quero mais viver e causar sofrimento para os outros! – explodi.
- Suas ações vão influenciar diretamente na vida da minha irmã. Pense nela, primeiramente.

Não me contive e desatei a chorar. Por mim já havia saído daquela casa, mas não podia deixar minha garotinha. Reclusa em meu quarto, mais uma vez meu marido tentou me acudir. Sua preocupação constante, sua devoção só piorava as coisas, fazia eu me sentir um lixo.

- Você é um burro! Idiota! Inútil! – urrei contra ele.
- Você precisa de ajuda. – foi tudo que me disse.

Então, começou a juntar minhas coisas, dizendo que eu teria que ir embora. Mas, passado a raiva, ele desistiu, não teve coragem.

E justo neste momento em que eu mais precisava de atenção, meu amante passou a me ignorar. Nunca me senti tão sozinha. As dores na barriga aumentavam a cada dia e eu sabia que se não fizesse alguma coisa iria perder o meu bebê. “Preciso de uma posição sua. Vai me ignorar? Então sua filha manda em você?” questionei-o. “Só Deus pode nos julgar!”. Ele não podia jogar para o alto tudo o que vivemos juntos com tanta facilidade. “Você realmente não se importa?” tornei a pressioná-lo, mas não obtive retorno. “Vão nos colocar frente a frente, você vai negar? E não adianta se esconder debaixo da saia da sua irmã!". A raiva crescia e tomava forma dentro de mim. "Acha que está certo o que está fazendo? Pense nisso."

Pensei realmente em me matar. Pedi para Deus me levar. Era horrível me sentir abandonada. Meu coração me traiu. Justo eu, que sempre fiz tudo para ajudar quem precisa, no momento que mais precisei, deram as costas para mim. Que sentido tinha a vida?

A garota me bloqueou em quase todos os perfis sociais, mas eu ainda podia visualizar suas fotos. Era melhor que não o tivesse feito, ver a família reunida e feliz só me machucou mais. Meu filho tinha uma nova família, não pude deixar de pensar. Ele escolhera ficar do lado do sogro... Todos eram inocentes, só eu era a vilã. Não podia pagar por tudo sozinha, ser crucificada por todos. “Fala pra sua filha parar de ser essa criança mimada e intrometida, a vida é nossa... seja homem! Seu medroso! Covarde!”, ataquei-o. E então, diante do seu silêncio, senti ódio.

O sentimento foi tão forte que refletiu em meu estado físico. Senti o sangue quente escorrer entre minhas pernas e corri para o banheiro, com uma dor sufocante no pé da barriga. Quis gritar, mas não pude, estava com falta de ar. Era tarde demais, eu sabia. Deixei que as lágrimas irrompessem dos meus olhos, não sabia se chorava de tristeza ou de ódio. Eu tinha duas opções a partir dali: tentar reconstituir a minha família, aprendendo a amar meu marido novamente, ou ir embora daquela casa e começar do zero, uma vida nova. Em qualquer das opções, uma coisa era fato: eu tinha que ignorar o que vinha acontecendo nos últimos cinco meses, eu tinha que deixar aquela família em paz. A palavra-chave aqui era amor próprio.

Deitei-me na cama e abracei os joelhos, esperando que tudo aquilo passasse. No que eu havia me tornado? Até que ponto cheguei? Por que fiz isso com a minha vida? Mas não havia respostas claras ao meu alcance. Só um vazio, escuro e eterno. Não percebi em qual momento exatamente adormeci, só sei que acordei com um leve cafuné na cabeça e quando abri os olhos meu marido sorria para mim. Minha cara devia estar péssima, por que sua expressão era de pena. Mas, por trás da pena, eu vi amor e sinceridade. Ele sabia de tudo, sabia que tinha outro e sabia também que havia acado. E naquele momento eu soube que, apesar de tudo, apesar de não ser o homem dos meus sonhos, ele nunca me deixaria na mão. Mas de nada adiantaria seu perdão, se eu não conseguisse me perdoar.

Na alegria e na tristeza, até que a morte nos separe.

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