segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Cabelo Trançado e Vestido Rodado

Houve um momento em minha vida em que as crianças andavam pela rua com os pés descalços e sujos de terra. Era comum ir para a escola a pé, prender o cabelo numa trança e arrastar a mochila de rodinhas morro acima. Final de semana era dia de piscina, parque ao ar livre e andar de bicicleta na praça da cidade. Pra não dizer que não éramos iniciadas neste universo digital, havia a casa do Adão, onde ele disponibilizava uma televisão, videogame e alguns pufes e cobrava por hora pra jogarmos Sonic, Super Mário Bross, Pac-Man, os clássicos.

Talvez seja por que eu cresci numa cidade pequena e campestre de Minas Gerais, mas quando retornei a minha terra natal, aqui em São Paulo, fui surpreendida com uma realidade diferente, apavorei-me. Nove anos, apenas, mas as garotas da minha nova turma escolar achavam ridículo que eu trançasse os cabelos. Elas já haviam beijado... na boca. E minha única companhia ficou sendo os livros ficcionais da biblioteca velha da escola. Foi aí que parei no tempo, recusava-me a seguir a onda daquelas garotas metidas-à-besta.

A coisa só mudou quando me apaixonei pela primeira vez, um vizinho de porta, dois anos mais velho que eu. Era ciclista quase-profissional e também nunca tinha “namorado”, se é que podemos nos referir assim a casais que andam de mãos dadas e trocam beijos tímidos. A vaidade bateu à porta e eu a deixei entrar: tirei as sobrancelhas na pinça, depilei as pernas, abandonei o batom rosa e aprendi a usar lápis de olho. Doce ilusão dessa meninada que pra crescer tem que parecer mulher feita. Tem que ter seios. Se não tem, coloca meia dentro do sutiã, que exige que venha com bojo.

Foi um romance gostoso, primeiro amor pra recordar com carinho. Entristece-me ver as garotas dos dias de hoje se desfazendo de um bem tão precioso: seu amor próprio. Esquecendo-se de ser criança, deixando de lado o prazer da infância. Entregando a virgindade como se si livrasse de uma vergonha. Antecipando o casamento, para não perder a vez, ou o homem. Abrindo mão dos estudos, de buscar uma profissão remunerada, de ser mulher independente.

Nem vestido rodado usam mais. Shorts jeans, justo e curto, é melhor para dançar funk.

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