terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Aula Experimental

Estava numa parte importante da história. Um momento decisivo entre o imperador e a camponesa. Ele devia abrir mão de sua herança para se aventurar com uma órfã? E ela, seria capaz de deixar o vilarejo onde cresceu para tornar-se uma dama? Era tão jovem, tão imatura. Ele também, não queria dar ouvidos ao pai.

- Lorena! Larga esse livro, você tem uma consulta agendada com o Dr. Cosme daqui à uma hora. Sairemos em dez minutos!

Minha mãe não era nada a favor do meu hábito de leitura. Ela se irritava com o tempo que eu passava entre os livros. Tinha de concordar com ela, em partes. Não tinha muitas amigas e detestava assistir televisão. Meu amigo era meu livro. Era através da literatura que eu conhecia o mundo, e adorava viajar por culturas diferentes, em séculos variados... Por isso sempre tirava a nota máxima em história, língua portuguesa, geografia... Notas medianas em matemática, física e química. Educação física não, era péssima.

- Onde pensa que vai com essa saia indiana? Pelo amor de Deus, volta lá e coloca e jeans. E passa um lápis, um batom, você está parecendo um fantasma!

Eu odiava usar jeans. Odiava maquiagem. Qual o problema em manter a naturalidade? Achava lindo o contorno das minhas sobrancelhas. As meninas da minha idade usavam maquiagem para cobrir as imperfeições da face. Esconder uma espinha, fazer os olhos parecerem maiores, os lábios mais volumosos. Eu não tinha necessidade disso.

Abri as gavetas e peguei o primeiro jeans da pilha desorganizada. Fiz um coque com os cabelos, contornei os olhos com lápis preto e os lábios com gloss. Por último, pendurei um brinco com uma pena colorida em uma das orelhas. Pelo menos uma pitada de quem eu realmente era.

- Bom dia mocinha, como você está? – ele sorriu, mas a boca apresentada poucos dentes. Senti calafrios.

- Estou ótima, Dr. Cosme. Mas minha mãe insiste que eu faça esses exames de rotina.

- Em que período você está? – encarei seus olhos sem compreender. – Você já tem quatorze anos, Lorena. Seu corpo está em transição para o amadurecimento. E isso mexe muito com seus hormônios. É normal que se sinta confusa, irritadiça e sensível. Mas, para que eu possa te ajudar, preciso que você seja sincera comigo.

- O que foi que minha mãe disse ao senhor? – perguntei, entediada com aquele lero-lero.

- Não importa o que ela disse ou deixou de dizer, eu estou vendo. O que significa essas espinhas no seu rosto? Posso enxergar a oleosidade daqui, mesmo que eu tire os óculos. E esses fios grossos e sedosos? Seu cabelo já foi mais bonito.

- Ok, já entendi. – dei o braço a torcer. – Eu estou tendo dificuldade para dormir. Perdi muito peso nos últimos meses. E ás vezes sinto uma tristeza horrível, que parece não ter fonte.

Dr. Cosmes escrevia aceleradamente em seu bloquinho. Aquilo me dava uma agonia...

- Preciso de alguns exames. Vamos ver se está com alguma alteração hormonal. De qualquer forma, evite comidas gordurosas e procure uma atividade física para fazer.

- Mas eu estou abaixo do peso!

- Isso mesmo. Você precisa ganhar massa muscular. E exercitar-se um pouco vai fazer bem para o seu humor.

Bem, se ele estava falando. Naquele mesmo dia eu me inscrevi para a ginástica feminina. Duas vezes por semana, caminhava até a academia vestindo legging, shorts jeans, top e uma bata. A sala tinha mulheres bem mais velhas, quase nenhuma garota da minha idade. Mas eu preferia assim. A instrutora não pegava nada leve. Começava a suar logo no aquecimento, o alongamento me deixava com os músculos em frangalhos e o relaxamento me fazia querer dormir, o corpo retornando ao seu estágio inicial.

O que me fazia relaxar era a música de fundo, algumas eletrônicas populares e um pouco de jazz. As melhoras eram visíveis: me sentia mais disposta e com um apetite aguçado. Ao final daquele ano, no dia da confraternização, me dei conta de que não havia feito amizade com ninguém. Senti-me exclusa na festa organizada e, depois disso, nunca mais voltei às aulas.

- Que tal se você fizer aulas de dança, Lorena? Não quer se inscrever?

- Até parece. Não tenho o menor jeito! Lembra das aulas de country?

- Filha, você tinha oito anos! Hoje é diferente. Vamos lá, eu tenho acompanho!

Não falei brincando, não levava o menor jeito para dançar. Arrisquei-me na turma de country do município e fiquei sem par para me apresentar, acredito que propositalmente. Na escola, fiz testes para dançar jazz na formatura, mas o máximo que consegui foi o papel de anjo. Anjo não se mexe, não canta nem dança. Só tinha de ficar lá, com uma palma contra a outra, sorrindo numa roupa ridícula, feita de isopor e glitter.

- Lamento, todas as aulas já estão com as turmas esgotadas. Mas está começando uma turma nova de Dança do Ventre, gostaria de fazer uma aula experimental? – disse o recepcionista, claramente se desculpando.

- Dança do Ventre não, mãe! – arg, era brega demais!

- Por que não? Pode ser legal! – sabia que não tinha chances de correr dali.

- Tudo bem, mas ninguém pode saber! Ta ouvindo?

Sentamo-nos em círculo. Havia mulheres de todas as idades, desde crianças à senhoras, a maioria fora de forma. Uma senhora na faixa dos quarenta entrou na sala descalça com um lenço de moedas amarrado nos quadris. Mas não era possível que fosse a professora. Ela tinha cabelos curtos e seios fartos. As dançarinas não eram magras, com cintura fina e cabelo cumprido?

- A Dança do Ventre é uma arte milenar originária do Egito. Ela traz muitos benefícios ao corpo, à mente e ao espírito. Desperta a sensualidade da mulher e contribui com diversos tratamentos para a saúde e autoestima. – dizia ela, mas os buchichos não permitiram que fosse em frente. – Eu vou mostrar a vocês.

Um pouco nervosa, ela se dirigiu ao aparelho de som e colocou uma música árabe. Todos se calaram para vê-la dançar. E quando ela começou, não parecia a mesma pessoa. A postura, o olhar, a leveza das mãos: era encantador. De repente, não importava se ela era baixa ou alta, gorda ou magra, ela era linda: pura e simplesmente.

- Vamos dançar?

Todas nos colocamos de pé imediatamente. A professora aumentou o volume do som e começou a nos guiar, ensinando passo a passo de cada movimento, andando entre a gente para corrigir uma por uma. Eu estava impressionada com a minha capacidade. Não imaginava que sabia fazer aquilo com o quadril. Não tinha noção do quanto eu era boa! E eu sorria. Estava feliz comigo mesma.


P.S.

Conto inspirado na minha primeira experiência com a Dança do Ventre. Estou trabalhando num romance histórico de ficção que mescla a arte da dança com algumas lendas místicas. Em breve =)

2 comentários:

  1. Ah, que fofura esse texto!
    É tão bom quando a gente descobre o que nos move, o que nos motiva. Eu fiz uma aula de dança do ventre, nao me identifiquei bem. Mas quando entrei no taekwondo, descobri que era pra mim.. engraçado, nao?

    Livre Leve Livro

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    Respostas
    1. Um ano depois, rsrs. Sim! A gente não espera se identificar com essas coisas, né? Sempre gostei de dançar, mas não me imaginava levando isto a sério, hahaha. :)

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