sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Por uma Vida mais Saudável: alimentos orgânicos caem no gosto dos jundiaienses


Reportagem por Melissa Souza apresentada em novembro de 2014 à disciplina de Técnicas de Pesquisa, Reportagem e Entrevista Jornalística, ministrada pela professora Cecília Luedmann, do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Faculdade Campo Limpo Paulista (FACCAMP)


O Brasil está no quinto lugar na Produção Agrícola do mundo, perdendo apenas para a China e o Japão. Todavia, esses dois países contam com um diferencial na plantação: a não utilização de pesticidas e/ou fertilizantes. Segundo um estudo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), baseado em informações disponibilizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Brasil é o país que mais consome agrotóxico no mundo desde 2008. Só em 2010, foi utilizado mais de 800 milhões de litros nas lavouras brasileiras.

Muito utilizado na agrícola brasileira para exterminar pragas e doenças que causam danos às plantações, o uso de agrotóxicos nos alimentos ainda gera muita dúvida no consumidor. Quando bem utilizado e dentro das quantidades adequadas, ele impede a ação dos seres nocivos, sem estragar os alimentos e causar danos à nossa saúde. Mas, quando ultrapassa a quantidade determinada pela ANVISA, o consumidor corre o risco de contrair três tipos de intoxicação: aguda, subaguda e crônica. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) afirma que o efeito do pesticida depende do principio ativo nele presente. Entre os principais sintomas temos dores de cabeça, dores no estômago, sonolência e problemas hormonais. Num nível mais elevado, a intoxicação crônica pode desengatar paralisias e doenças graves, como o câncer.

Para aumentar sua lucratividade e deixar sua safra imune a pragas, as grandes corporações brasileiras estão fazendo com que o país seja invadido por venenos agrícolas e alimentos transgênicos. A Anvisa já constatou o uso irregular de agrotóxicos nos alimentos produzidos em 15 estados diferentes, prejudicando o meio ambiente e a saúde do cidadão brasileiro. Esses venenos estão presentes na maioria dos alimentos: uma beterraba contém 32% de agrotóxicos, enquanto o tomate possui 33% e o alface 38%. Uma das alternativas para a substituição do uso de agrotóxicos seria as biopesticidas: termo referente a produtos feitos a partir de micro-organismos, substâncias naturais ou derivados de plantas geneticamente modificadas, que realizam o controle de pestes.

Mas qual seria a melhor solução para diminuir a ingestão de agrotóxicos? Conversando com a nutricionista Silmara Toledo Pastori, a melhor opção seria o consumo de alimentos orgânicos, pois são cultivados sem o uso de agrotóxicos ou adubos químicos. Apesar de não serem atrativos nem pelo valor e muito menos pela aparência, os alimentos orgânicos possuem mais vitaminas, carboidratos e sais minerais, além de serem naturalmente saborosos.


Para quem ainda não aderiu à compra de orgânicos, vale usar uma das receitas ensinadas pela Dra Silmara para lavar os alimentos, mas ela adverte que “apenas lavá-los não basta, já que nem todos os resíduos podem ser eliminados ou estão exclusivamente na superfície dos alimentos”, a lavagem serve apenas para diminuir a ingestão de agrotóxicos.

  • Detergente concentrado de casca de limão: descasque 4 limões orgânicos, corte finamente as cascas e misture-as com uma xícara (235 ml) de vodca em uma vasilha. Feche bem o recipiente e reserve por duas semanas. Para usar o detergente, misture duas colheres de sopa da solução e 950 ml de água.
  • Detergente oxigenado: misture 3 xícaras (710 ml) de água filtrada com 1 xícara (235 ml) de água oxigenada e aplique a mistura com um spray, esfregando os alimentos, ou deixe-os de molho. Lave-os antes de comer.
  • Tônico para lavar frutas e vegetais: misture 3 xícaras (710 ml) de água filtrada, 3 colheres de sopa de vinagre branco e 2 colheres de sopa de bicarbonato de sódio e aplique com um spray, esfregando os alimentos, ou deixe-os de molho. Lave-os antes de comer.

Jundiaí Orgânicos

Hortícolas, hortaliças, legumes e frutas, todas fresquinhas, além de produtos industrializados, como bebidas, grãos derivados, molhos, ovos, laticínios, temperos, conservas e outros, podem ser encontrados na Feira Orgânica de Jundiaí, que acontece sempre aos domingos das 7h às 13h, na Praça Enio Lotierzo, entre as avenidas Nove de Julho e Prefeito Luiz Latorre. Além da boa compra, o consumidor pode ser informado sobre os benefícios do alimento e sobre como prepará-lo.


De acordo com o engenheiro agrônomo Sérgio Pompermayer, a Feira Orgânica de Jundiaí é atualmente única entre outras 14 feiras livres e os 19 varejões da cidade por contar exclusivamente com produtores orgânicos. Voltada para os consumidores interessados em melhorar a saúde, a ação tomada pela Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Turismo do município também incentiva este tipo de agricultura entre os produtores.

O produtor Marcelo Zamboli trabalha com o filho na feira orgânica de Jundiaí desde que esta foi inaugurada, há um ano e sete meses. Além disso, mantém uma parceria com diversos sítios e feiras do estado de São Paulo. Segundo ele, os produtos já foram mais caros, consumidos apenas por pessoas da classe A e B, mas hoje está muito mais barato, uma família classe C também pode se alimentar bem: “As hortaliças duram mais, as frutas são mais saborosas e o valor é no máximo 30% mais caro do que as pessoas pagam no mercado, mas por causa de 50 centavos muitos acabam optando por alimentação que não é saudável”.

Com mais de 35 anos de experiência em agriecologia, Marli Ceccato é uma especialista na área, “minha faculdade foi a vida”. O negócio é de família: há muitos anos casou-se com um italiano e juntos começaram a produzir alimentos orgânicos em Jundiaí. A motivação levou-a a dedicar anos de estudo e pesquisa na área, “já viajei o Brasil todo, até participei de congressos!”, diz ela, com um sorriso de orgulho estampado no rosto.

Diversos profissionais já inspecionaram o sítio da família Ceccato para conferir as terras férteis e a pureza do ar: a água utilizada vem de nascentes, o solo é desintoxicado e preparado com recursos naturais para realizar a plantação. Marli explica: “nossa cenoura é 100% natural, enquanto a de mercado é apenas 20%, o restante é química. Eles usam agrotóxicos para tratar a plantação, enquanto nós fazemos todo o trabalho na mão”.

O processo saudável é o mais lento, pois é preciso esperar o tempo da natureza, mas em compensação, numa banca orgânica só se encontra hortaliças da estação. “Um alface leva em torno de 35 a 40 dias entre plantio e colheita, o não orgânico fica pronto em 20 dias, é mais vantajoso para o mercado, mas não é saudável”, alerta Marli.

Além de Marli Ceccato, José Roberto de Paula e Rosimeire Fonte Basso são mais dois dos integrantes da Organização de Controle Social (OCS), uma cooperativa que possibilita a certificação orgânica dos produtores para venda direta. Nomeada de ‘Jundiaí Orgânicos’, a OCS é formada agricultores, técnicos e consumidores, entre eles Ivan Salies Júnior, Felipe Oliveira Magro, Roberto Magieri, Jonathan Ceccato e Luiz Alberto Giassetti. O trabalho do grupo é mostrar aos jundiaienses como os produtos orgânicos beneficiam o meio ambiente do município e a saúde dos moradores pela sua forma de produção. A rotina alterna entre reuniões e visitas a sítios, sempre às segundas-feiras, onde um inspeciona o trabalho do outro. Quem tem interesse em participar da associação, basta entrar em contato com a Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Turismo e verificar a data da próxima reunião ou visita.

Do Supermercado para a Mesa

A horta da família fortaleceu o crescimento de Eliza Aramaki, hoje casada e mãe de um menino na faixa dos dez anos, ela mantém a tradição de consumir alimentos orgânicos, “é mais saudável”. Já a jundiaiense Fernanda compra hortaliças orgânicas desde que se tornou mãe, preocupada com a saúde e bem estar do bebê. Mas nem todas as mães tem acesso à essa alimentação mais saudável.

Inaura Ferreira de Souza, popularmente conhecida como “Nina”, é mãe de três meninos – resultado de um casamento de mais de 20 anos – e administra um brechó montado na garagem do sobrado onde vive, em Várzea Paulista. Em entrevista cedida à nossa equipe, disse que sempre fez as despesas da casa na rede de supermercados Russi, com o apoio dos cartões-alimentações que o marido e o filho mais velho recebem como benefícios das empresas onde trabalham.

Neste mesmo supermercado, Nina compra um produto especial para a lavagem de vegetais. “Estou ciente de que lavar minhas frutas e verduras com desinfetante ortifruticulas não é o suficiente para deixá-las mais saudáveis, mas as feiras orgânicas não aceitam vale alimentação”, diz ela, confirmando a realidade da maioria das famílias assalariadas de classe média do Brasil que usufruem dos benefícios que as empresas oferecem para suprir as necessidades da casa.

Por outro lado, Vera Lúcia Lourenço de Souza não abre mão de fazer suas compras nos hortifruti’s do bairro onde mora, em Jundiaí, “acho mais confiável”, afirma. Quando questionada sobre a limpeza dos alimentos, ela disse que usa apenas água corrida, e completa: “geralmente as pessoas usam vinagre ou outro produto para desinfetar os alimentos, mas eu não gosto”.

Divorciada e mãe de um jovem casal, Vera está finalizando uma casa com seu futuro marido depois de cerca de dez anos de relacionamento e promete que dará um futuro melhor e uma vida mais saudável à família. “Claro que, se eu pudesse, daria preferência à alimentos orgânicos, mas é muito difícil encontrar esse tipo de alimento e, quando acha, é muito caro, não tenho condições de comprar”, afirma, com tristeza.

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