quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

“Aguirre, a Cólera dos Deuses” - O Desfecho

“Aguirre, a Cólera dos Deuses” é um longa-metragem alemão produzido em 1972 e filmado em locações no Peru e no Rio Amazonas. Considerada uma obra-prima do cinema mundial, este filme marca o início de uma parceria de 15 anos entre o diretor Werner Herzog e o ator Klaus Kinski.

Baseado em fatos históricos, o drama foi inspirado na expedição de conquistadores espanhóis em busca de El Dorado, a lendária cidade de ouro. Todavia, o filme se concentra mais nas teses do diretor Herzog, que procura mostrar os efeitos mentais e emocionais sofridos pelos homens em situações-limite, confrontados com a natureza primitiva e desconhecida.

A proposta deste trabalho é apresentar – por meio de uma narrativa pessoal por escrito – uma possível continuação para o roteiro de “Aguirre, a Cólera dos Deuses”.


O Desfecho

Com o cair da noite, sombria e fria, Aguirre tomou consciência de sua perdição em alto mar, em meio à vastidão da floresta que o cercava ameaçadoramente. De maneira alguma poria firmaria os pés em terra, visto que poderia ser morto por aqueles índios sem civilização alguma. Era o filho do Sol, temendo os céus e os mares.

O lorde delirante se deixou cair na jangada, mas não se permitiu fechar os olhos uma única vez. O cansaço da mente não alcançava o corpo, o que tornava impossível que cochilasse, mesmo que por pouco tempo. Olhos insanos percorriam o espaço e monitoravam cada movimento... Os macacos devolvem o olhar, atentos.

Mais um amanhecer, mas independente da fome que aperta o estômago, a expedição não podia chegar ao fim enquanto não alcançasse o que viera buscar. Apenas ele acreditava na jornada impossível, o véu da cobiça cobrindo seus olhos, o corpo rastejando pela jangada com a ameaça de uma cobra, aguardando mais uma investida das flechas que assolaram seu grupo de guerreiros.

O barco artesanal enfraquece conforme luta contra a forte correnteza do rio Amazonas, algumas partes cedendo à força da natureza. Cabeça erguida, peito estufado, Aguirre não baixa a guarda, mantendo o orgulho e o olhar soberano, até que, por fim, é engolido pelas águas.


Considerações


O clássico drama histórico “Aguirre, a Cólera dos Deuses” narra diversas guerras em um único episódio: a guerra entre diferentes tipos de civilizações, a guerra entre o homem e a natureza e, principalmente, a guerra do homem contra sua própria soberba e ganância, tratando de temas que refletem sobre a importância e eficácia da política, das tradições e da religião. 42 anos se passaram desde a sua produção, todavia vemos que nada mudou.

O que mais surpreende foi a ousadia do diretor em misturar as cenas com a realidade, não sabemos quando os atores estão interpretando e quando estão improvisando, dada às circunstâncias, fora os inúmeros obstáculos que tiveram que lidar durante as filmagens, refletindo o conflito presente no contexto do próprio filme.

Busquei, com minha narrativa, interpretar uma questão filosófica que aborda a humanização do Aguirre, num possível momento posterior às filmagens em que ele toma consciência de si e do vasto mundo que o cerca, absorvido pela natureza.

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