quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Onde está sua esperança?

Um garoto na faixa dos 15 anos foi baleado no ponto de ônibus onde eu estava, aproximadamente às 6h45, nesta terça-feira, dia 7. Tinha muita gente no ponto, esperando o ônibus que, para variar, estava atrasado. Entre essas pessoas, jovens estudantes, trabalhadores, idosos e crianças. Demorou um pouco até que todos se dessem conta do que estava acontecendo para começarem a correr. O rapaz foi pego de surpresa e, para nosso azar, correu na mesma direção que a multidão, mas conforme as balas eram disparadas contra ele, este perdeu a força, até que caiu morto no chão, ao meu lado.

Uma senhora tentou acalmá-lo enquanto corríamos, fiquei impressionada com a sua tranquilidade conforme dizia “calma jovem, calma jovem...”. Olhos assustados, corações a mil, “alguém chama a ambulância”, gritava a senhora. Levou poucos segundos para um homem chegar ao local e reconhecer o irmão. Ajoelhou, gritou e chorou, agonizando.

Tomei consciência de mim. Meu coração estava acelerado, minhas mãos tremiam, a perna ralada ardia, não sabia como reagir, o que fazer. Desastrada como sou, claro que tropecei e caí enquanto corria. Bati a cabeça em algum momento, provavelmente na parede, todavia não me lembro de como fiz essa proeza. Não importa. O que mais dói é a angústia incompreensível que eu estou sentindo.

A funerária só apareceu para retirar o corpo depois das 11 da manhã. A notícia foi publicada em jornais locais na manhã seguinte, com informações mal apuradas. Os policias estão rondando o bairro, mas ainda não chegaram a nenhum suspeito (?).

Gostaria que esse texto fosse mais um dos meus contos, mas infelizmente não é. Também não é a primeira vez que presencio alguém segurando uma arma. Não é a primeira vez que vejo alguém ser cruelmente baleado. E não estou falando de televisão. Nunca vou me esquecer da semana traumatizante que passei na casa de uma tia, em Guarulhos, quando eu tinha 9 anos. Além disso, não morei nos melhores bairros da cidade, se é que me entendem. Independente disso, posso afirmar que corremos riscos todos os dias.

Se fosse você que estivesse lá, como teria reagido? Eu poderia ter tomado o ônibus, como muitos fizeram, assim que ele chegou, mas não conseguiria retomar a rotina com essa normalidade. Eu poderia ter tirado uma foto e tentado falar com as pessoas do local para escrever uma matéria para o jornal da faculdade, mas senti que isso seria muito indelicado, não tenho essa frieza para atuar com jornalismo policial. Quando os tiros começaram a ser disparados, minha vontade era deitar no chão e colocar as mãos sobre os ouvidos, mas como todo mundo correu, resolvi fazer o mesmo. O que seria mais sensato?

Cessado o tumulto maior, fiz o que qualquer jovem da minha idade faria se se sentisse amedrontada e confusa: liguei para minha mãe.

“Mãe...”, falei e pausei, assustada com o tremor na minha voz.
“O que aconteceu?”, questionou, já alerta.
“Eu estava no ponto de ônibus e um cara chegou atirando.”, só então permiti que uma lágrima escapasse pelo canto do olho.
“Meu Deus... Vem pra casa agora!”
“Tá”, respondi e obedeci, recuperei a calma e caminhei para casa sem olhar para trás.

Eu senti uma necessidade imensa de falar com alguém. Pedi pro meu irmão tomar cuidado quando saísse para pegar o ônibus para o trabalho. Avisei meu namorado que não iria para o curso naquele dia. Enviei um sms para meu pai, agradecendo suas orações. Liguei para a escola para perguntar em que horário poderia remarcar a aula. Enviei um e-mail para o professor responsável pelo jornal da faculdade. E, por fim, escrevi esse post.

Ainda naquele dia eu teria uma apresentação de Dança do Ventre na faculdade Pitágoras, representando o Studio de Dança Vanessa Tâmega, onde dou aulas regulares. Perguntei-me se deveria cancelar, ligar para ela e dizer que não estava legal. Como poderia subir no palco, dançar e sorrir depois de ter presenciado um assassinato? Mas me dei conta de que não queria cancelar. De início, senti-me um pouco desumana em não querer cancelar.

A verdade é que, independente de quem fosse a pessoa que atirou e o que o rapaz tivesse feito para morrer daquele modo, não pude deixar de pensar que, se ambos tivemos recebido uma instrução acadêmica, espiritual e cultural talvez essa tragédia pudesse ter sido evitada. Não estou falando de base familiar, nível de escolaridade, classe social. Nossos jovens estão perdidos, sem distinção.

Não importa quantos traumas passamos, o lugar onde crescemos, se temos poder aquisitivo ou não, se seguimos uma religião: todos precisam de uma forma de vazão, uma maneira de externizar as frustrações, a raiva, a mágoa, a solidão e tudo aquilo que a vida nos traz. Eu quero fazer alguma coisa para ajudar. Eu quero que as pessoas se conscientizem de alguma forma.

Por isso, não cancelei minha apresentação, por que naquele palco (na verdade foi no chão) é onde eu desejava estar: expressando sentimentos em forma de movimentos num festival cujo público eram jovens estudantes que buscam uma orientação acadêmica e cultural. Buscam motivação.

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