quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Relato Pessoal

A faculdade deu início a um projeto muito legal para o curso de Comunicação Social, “A Cultura vai até Maomé”. A ideia é trazer uma atividade cultural diferente todo mês e promover debates sobre o assunto, estimulando a curiosidade, interatividade e tudo mais. Já tivemos duas atividades: a primeira foi uma peça de teatro pós-dramático e a segunda uma série de vídeos e clips sobre cultura e educação.

Este último mexeu muito comigo. Por que trouxe lembranças dolorosas da minha infância e juventude. Construí um relato pessoal como relatório da atividade, mas não posso entregar esse texto ao meu professor. Então resolvi publicar aqui.

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Meus pais se divorciaram quando eu estava com cerca de 4 anos de idade. Minha mãe foi trabalhar e fazer terapia em São Paulo, enquanto eu e meu irmão, um ano mais velho que eu, ficamos morando com meu pai, em Minas Gerais. Ele trabalhava direto, então minha avó e minha tia sugeriram que fossemos colocamos numa creche. Foram apenas 9 meses, tempo que a minha mãe levou para descobrir e se mudar para Minas Gerais para nos “resgatar”, mas esse período deixou grandes traumas.

Eu já estava abalada com o distanciamento da minha mãe, minha avó e minha tia não cooperavam, pois viviam maldizendo-a, insinuando que ela havia nos abandonado e outras coisas maldosas, e minha professora não era nada paciente: ela agredia os alunos por qualquer motivo. Fui vítima dos seus tapas, beliscões e puxões de cabelo muitas vezes e por motivos que não justificavam a violência.

A creche adotava um regime de autoritarismo e repressão. Tínhamos que seguir um sistema maçante de atividades, banho, merenda, parque, soneca. Eu não conseguia dormir a tarde, mas era obrigada a ficar com os olhos fechados se não quisesse levar bronca e ficar de castigo. Só podíamos ir para o parque depois de comer a merenda. Eu não sentia apetite para comer, então eu não brincava.

O problema era que ninguém conversava comigo para saber o que estava acontecendo. Minha mãe foi a única que percebeu que havia algo errado e imediatamente nos tirou da creche. Ela teve um trabalho árduo para me tirar da depressão. Eu estava arredia, vivia alerta e com medo. Fazer-me comer e falar eram tarefas impossíveis: tudo que eu comia, vomitava mais tarde e se me obrigassem a falar começava a chorar, em pânico.

No ano seguinte, aos 6 anos de idade, eu iria entrar para a primeira série. Tive um ataque de choro, desesperada com a ideia de me ver num ambiente escolar novamente. Minha mãe precisou me acompanhar e ficar presente durante as primeiras aulas até eu me sentir segura. Mas o papel da professora foi fundamental nesse processo de adaptação: ela me acolheu. Isabel era doce, incentivava a criatividade e estimulada a sociabilidade. Ela me levava para fora da sala de aula e conversava comigo sempre que eu me comportava de forma estranha. Então eu me apaixonei pela escola e, principalmente, por estudar. Chegava a ficar triste nos períodos de férias.

Com este relato pessoal quero mostrar como o educador e a família tem um papel social fundamental para a construção do indivíduo, seja positiva ou negativamente.

Meu irmão enfrentou problemas diferentes dos meus: ele era muito sociável, ativo e extrovertido. Mas apresentou grandes dificuldades para participar das aulas e acompanhar os colegas de classe durante o Ensino Médio. Isso por que ele possui um perfil sinestésico e visual, ele necessita de movimento e conteúdo multimídia para se manter atento. Ficar sentado, calado, lendo, ouvindo um professor falar é impossível para ele. Distraía-se fácil durante as aulas e os professores reclamavam de mau comportamento. Não demorou muito para que suas notas caíssem muito, colocando-o em risco de repetir a série. Terminado o Ensino Médio, ele simplesmente não quer mais saber de estudar. Abomina a ideia de entrar num curso técnico, numa faculdade ou até mesmo num curso livre. E isso me deixa muito triste, por que eu conheço a sua capacidade, mas ele não acredita no seu potencial, e não sei o que fazer para ajudá-lo.

Quanto à presença das atividades culturais em nossas vidas, na minha opinião, o interesse varia de pessoa para pessoa, independente de seu acesso ou classe social. Meu pai sempre me levou em programas culturais gratuitos do município e tanto ele quanto minha mãe incentivaram a leitura. Não fomos reprimidos para brincar, pelo contrário, minha mãe sempre incentivou a prática de atividades físicas, mas também o conhecimento das tecnologias modernas, como videogames e computadores. Ela estudou apenas até a quarta série, mas sempre acompanhou veículos de comunicação e informação. Meu pai tem 54 anos e sempre busca se atualizar, seja aprendendo a usar um smartphone ou ser ativo nas redes sociais.

A lição mais importante que me deram no momento em que escolhi minha profissão foi: comunicador social tem que entender de cultura popular. Não gosto de assistir televisão, das músicas atuais ou mesmo das tendências de moda e não sigo a doutrina de nenhuma igreja, mas compreendo e respeito todos os gostos, estilos e opiniões, pois sei que isso contribui com a nossa riqueza cultural, social e intelectual.

2 comentários:

  1. Não pude começar a ler esse texto e não terminá-lo.
    Tudo o que passamos em nossa infância reflete diretamente em toda a nossa vida futura, mas, acima de tudo, nós mesmos temos o poder de decidir se faremos da nossa vida o melhor possível que ela pode nos dar.
    Fico contente que, apesar da frustração na primeira experiência na escola, você tenha se tornado uma escritora com uma escrita tão boa que muita gente que estuda pra caralho a vida toda não consegue ter.
    Aliás, você está certíssima quando lhe disseram que para ser um profissional de comunicação social, tem que estar envolvido em toda sorte de cultura popular, sem preconceitos. Eu era TÃO preconceituosa antes de entrar na faculdade, hoje aprecio e valorizo todo tipo de expressão cultural da nossa realidade.

    Me, continue sempre assim. SEMPRE!
    Beijos! <3

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    Respostas
    1. Obrigada, Gisa!

      Apesar do trauma da creche, tive sorte em ter uma professora tão amável e atenciosa na primeira série, acho que isso contribuiu bastante para que eu mudasse a visão que tinha formado do ambiente escolar.

      Quanto à jeito com a escrita, muuuuita leitura e muuuuita prática, haha! Não tem outro jeito de aprender, não é como a matemática, que é só decorar a fórmula (eu era boa de matemática também, acredita?).

      Tem muita gente que não entende o que é o preconceito, Gisa, e os diferentes tipos. Tivemos um módulo de Antropologia na faculdade onde só estudamos isso! Acho que é impossível ficar 100% sem preconceito, rs, mas à partir do momento que conhecemos e aprendemos o sentido de algo, fica mais fácil aceitar, né?

      Beijos, volte sempre =)

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