quarta-feira, 12 de junho de 2013

Gata Arisca

A primeira vez que eu a vi senti-me afobado, o nervosismo tomou conta do meu corpo e perdi a noção dos movimentos, atrapalhando-me. Chegara a cidade há três meses e até então não havia me interessado por nenhuma garota, até vê-la. Usava shorts curtos e blusinha preta decotada, estava descalça, sem maquiagem e com os cabelos castanho-avermelhados preso num coque mal feito. Ela era linda, e naquele momento eu soube: eu a queria. Mas não queria simplesmente “ficar” com ela. Sentir sua boca, seu cheiro e sua pele não eram suficientes para mim. Minha mente agiu rápida e sozinha com a consciência de que eu queria conquistá-la. Eu queria que ela se sentisse atraída por mim. Eu queria que ela me desejasse da mesma forma que eu estava lhe desejando naquele momento.

- Que morena linda, não? Com essa eu namoro. – não pude evitar o comentário com os amigos, mais tarde, ao voltarmos para casa.

Eles riram de mim.

- Fala sério, ela não é garota pra você.

O comentário me chocou, não tinha pensando desta forma até então. Uma moça serena, educada e toda meiga como ela se interessaria por um cara como eu? Criado nas praias de Recife, sem regras nem limites, vivendo em São Paulo apenas com o que carrega na mochila. Nunca que eu poderia levar a princesa pra pegar um cinema, ou comprar-lhe um presente.

Voltei na papelaria onde ela trabalhava alguns dias depois. Na realidade, inventava motivo para ir lá comprar alguma coisa, apenas para vê-la sorrir para mim toda acanhada. Como esperado, ela atendeu meu pedido de prontidão e logo depois mirou os olhos no gatinho que eu segurava nos braços.

- Mas que fofura! É seu?

- Encontrei ali na esquina, chorando de fome. Vou levar pra casa e alimentar.

- Posso segurar um pouco?

Passei o bichano para os olhos que brilhavam de ansiedade. Ela lhe embalou no braço como se segurasse um bebezinho, alisando os pelos de sua cabecinha com a ponta dos dedos. Não pude evitar tombar a cabeça de lado admirando seu gesto. Como eu queria ser aquele gato em seus braços naquele momento!

Notando que eu lhe observava, ela ergueu os olhos para mim com as bochechas rosadas.

- Estou te atrasando, não?

- Se eu pudesse não iria embora nunca – confessei – Mas tenho que ir.

Ela me entregou o gato e sorriu mais uma vez pra mim. Sustentei seu olhar por mais tempo que esperava.

- Voltarei para vê-la. – prometi.

Quase um mês se passou antes de finalmente nos encontrarmos a sós na avenida principal da cidade, longe de casa e com o dia escurecendo. Prometi-lhe buscar-lhe depois da aula e lá estava eu.

- Ei, morena, eu quero ficar com você. – disse de uma vez.

Ela me olhou assustada, as bochechas corando aos poucos, encarou o chão por um segundo e depois me tomou pelas mãos, puxando-me contra seu corpo. Seus lábios eram os mais macios e os mais doces que eu já havia provado. Eu poderia morrer naquele instante, pois morreria feliz.

- Era isso que eu queria. – suspirei contra seu pescoço, prendendo-a num abraço forte. - Obrigado por existir.

Não demorou muito para que eu me visse completamente apaixonado. Mas ela me parecia muito indecisa, dava bolo em nossos encontros, não atendia meus telefonemas. Cerquei-a de todos os lados, não podia deixá-la escapar.

Estava morrendo de vontade de vê-la, beijá-la e abraça-la quando nos encontramos no estacionamento do supermercado da cidade. Mal nos cumprimentamos antes de eu grudar minha boca na dela. Não podia deixar passar aquele momento.

- Humm, que boquinha boa de beijar. – disse, e ela sorriu, mas seu sorriso não alcançou os olhos. – Poxa, morena, eu queria te ver mais vezes. Queria que a gente fizesse alguma coisa juntos. Diz-me, o que você espera da gente?

Ela ficou calada por um momento, depois disse sem me olhar nos olhos:

- Esperaria algo, se soubesse até onde eu poderia ir.

Conforme o tempo passou, mais distante ficávamos. Antes não houvesse palavras. As conversas e as confissões só geraram mal entendidos. Principalmente pelo que não fora dito. Apesar de eu rodeá-la, ela estava sempre querendo mais.

- Oi, não vou poder ir na sua casa hoje. Espero que seu dia esteja sendo tão bom quanto você é pra mim. Você é incrível, está sempre pensando na gente. Obrigado por se lembrar de mim e, por favor, não fica chateada não...

Ela tinha tudo e ainda podia escolher. Eu não tinha nada e ainda precisei abrir mão dela.

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