segunda-feira, 17 de junho de 2013

Escarlate

Encarei os dias do calendário na tela do meu celular. Atrasada. Três dias. Era o suficiente para ter certeza? Um sinal anunciou o término do intervalo e me arrancou dos meus pensamentos. Tinha que voltar para a sala e me concentrar nos estudos. Era tudo o que eu podia fazer naquele momento.
Eu não podia ir ao posto de saúde sozinha, já que ainda era menor de idade. Eu podia juntar dinheiro e comprar um teste de gravidez. Eu podia ter tomando aquela pílula do dia seguinte. Ou melhor: eu podia ter conversado com a minha mãe e começado a tomar anticoncepcional antes de pensar em...
Minha mãe ia pirar. Ela vivia dramatizando a importância de conservar a nossa “pureza”. Eu nem estou comprometida.
Ainda me lembro da rouquidão presente na voz dele ao sussurrar palavras bonitas em meu ouvido. Ainda esperava que ele fosse aparecer na saída da escola. Mas eu sabia que ele não ia voltar. Eu sabia, mas não queria acreditar. Agora eu estava sozinha. Um dia vão me perguntar sobre o pai... E o que eu vou dizer?
Meu pai vai me matar. Vai me expulsar de casa. Vou ter que romper os estudos.
- Professora, licença, eu preciso ir ao banheiro.
Saí quase que correndo da sala de aula. Não podia permitir que me vissem chorando. Estava indo tão bem, fingindo que nada tinha acontecido. Já me bastava minhas noites mal dormidas. Os enjoos estavam se tornando cada vez mais frequentes. Uma hora iriam notar. A fofoca ia chegar ao ouvido dele. Ele me procuraria. Ou não?
Tranquei-me num compartimento do banheiro e comecei a soluçar baixinho. A barriga ia começar a crescer a qualquer momento, não podia esconder isso dos meus pais. Terei que fugir de casa. Ou isso ou eu cometo um crime. Eu, euzinha, uma assassina, já pensou?
Ouvi a porta sendo aberta, sufoquei o choro no mesmo instante. Levantei-me e grudei o ouvido na porta, pra ver seu ouvia alguma coisa. Foi quando vi: um filete de sangue vermelho e vívido descendo pela coxa direita. Em harmonia, as lágrimas vieram aos olhos, e dessa vez não me importei se me ouviriam, se comentariam. Um sorriso de alívio brincava entre meus lábios.

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