sexta-feira, 28 de junho de 2013

Editora-Chefe

Prendeu-lhe num beijo longo de despedida, sentindo a maciez dos seus cabelos loiros entre os dedos.
- Bom trabalho, linda.
- Obrigada meu bem, até amanhã. – sorriu para ele seu sorriso mais bonito e logo após entrou no escritório pelas portas de vidro e seguiu em frente, sem olhar para trás.
Cumprimentou a recepcionista e subiu a escada circular até chegar ao seu departamento. Todos já tinham começado a trabalhar, inclusive sua amiga e assistente, que esperava ansiosa em frente à sua sala.
- Ele ligou. Disse que precisa falar com você.
- Estava olhando pela janela?
- Não tirou os olhos dela nem por um minuto.
- Ótimo. Peça para vir a minha sala daqui a dez minutos. Preciso retocar o batom.
- Ok, boa sorte! – a jovem sorriu para ela, contagiada pela sua esperança.
Encontrava-se sentada profissionalmente à sua mesa quando ele entrou. Convidou-o a se sentar sem tirar os olhos do computador.
- Preciso de uns toques seu no projeto. Pensei em almoçarmos juntos para discutirmos alguns pontos.
- Humm, hoje não dá. Eu e o Mauro já reservamos uma mesa num restaurante italiano.
Olhou para ele pelo canto do olhou e notou que mexia muito as mãos. Estava nervoso. Perfeito.
- Então, já faz um tempo que estão saindo juntos, não?
- Ah, ele me viu dando uma palestra e se apaixonou. Disse que sou muito dinâmica e carismática. Enfim, me cativou com suas lisonjas. Eu não estava a fim de continuar sozinha, então pronto, to curtindo. Nada sério. – disse, explicando mais do que o necessário, e depois ficou encarando as unhas bem feitas, à espera de uma reação.
- Eu te convidei pra sair, Priscila. Você disse que...
- Eu aceitei, e nunca marcamos uma data. Não podia ficar te esperando.
- A sede por diversão era tanta assim?
Chocou-se, e sem se conter olhou-o nos olhos por cima do aro dos óculos. Estava lindo com os cabelos castanhos escuros rebeldes, a barba por fazer e a testa franzida. Ficava mais do que lindo quando estava preocupado. Erro fatal. Alerta. Ela estava prendendo a respiração. Piscou algumas vezes e voltou a si.
- Você é diferente, Leandro. Não é o tipo de homem com quem eu me envolveria por diversão. Primeiro porque eu já tenho um carinho especial por você, eu que te indiquei para essa vaga, não foi? Já conheço um pouquinho de você e gosto desse pouquinho.
Ele não esperava por isso. Remexeu-se desconfortavelmente na poltrona e, sem palavras, levantou-se.
- Tenho trabalho para terminar.
- Claro. Podemos continuar a conversa depois. Agendarei uma reunião com toda a turma da redação para discutirmos o projeto juntos, tudo bem?
- Tudo ótimo. – concordou, já se virando para sair, mas antes de atravessar a porta ela pode vislumbrar um sorriso de satisfação brotando em seus lábios.
Levou o telefone ao ouvido e discou o ramal da assistente. Segundos depois, a jovem pálida e ofegante esperava ansiosa por respostas.
- E então? Ele se declarou?
- Ainda não, tímido como sempre. Mas o lance com o loirinho ta funcionando.
- Mas, Priscila, você não ta iludindo o coitado do Mauro?
- Faz-me rir, Jéssica. Ele é um jovem tolo louco para curtir a vida, não vai se apegar a mim tão facilmente. Já o Leandro, não. Ele é maduro o suficiente para ter sentimentos. Mas ainda é inseguro como um universitário.
Jéssica caiu em gargalhadas, jogando os longos cabelos sedosos para trás num movimento gracioso. Ela ria, mas por dentro se encolhia de vergonha da inveja que sentia da loira platinada majestosa à sua frente, ocupando a cadeira que ela tanto cobiçava e usando um terninho requintado lilás que ela já havia procurado por todo o centro de São Paulo sem sucesso. Jurava que naquele momento ela estava pensando em quantas artimanhas mais seria necessário para deixar o moreno mais gato da redação de quatro aos seus pés.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Tenso!

Ok, eu estava super tensa quando escrevi a postagem anterior referente ao meu diário.
Realmente, estava com a expectativa lá no alto com relação à minha faculdade e mais uma vez não deu certo. Além disso, senti-me frustrada por ainda estar desempregada e com isso não poder ajudar mais a minha mãe. Também fiquei um pouco desapontada com meu desempenho na Oficina de Contos. Não consegui fazer o dever de casa, o que só prova que não consegui alcançar as expectativas da minha instrutora, por este motivo não me sinto digna de receber o certificado de conclusão do curso.
Além disso, as meninas tiveram uma ideia muito legal de reunir as duas turmas participantes da Oficina num café da manhã no Jundiaí Shopping, para todos se conhecerem e trocarem ideias. Eu adoraria ir, se tivesse algum orçamento para isso. Na hora me veio a vontade de convidar um grande amigo e aliado meu, que com toda a certeza se daria ao trabalho de me explicar os itens do menu e faria com que eu não me sentisse intimidada por estar num lugar que pouco frequento. E eu morreria de orgulho dele, afinal ele é muito inteligente e tem uma resposta para tudo, seria maravilhoso assisti-lo conversando com as mulheres e, principalmente, achando um meio de me incluir na conversa, mesmo eu sendo bem mais nova. Mas aí eu lembrei que não podia mais contar com ele.
Veja bem, não é que eu queria ser mais velha. Eu gosto muito de ser jovem e tenho o maior orgulho de ser mais madura do que minha idade apesar de ter pouca experiência de vida. O que me irrita é quando associam a idade biológica com a idade mental. Do mesmo modo que uma pessoa se sente ofendida se chamada de velha, eu me sinto ofendida quando me dizem que sou muito nova pra isso ou aquilo. Muito chato isso. Do mesmo modo que uma pessoa mais velha pode ser inteligente o suficiente para compreender temas e assuntos atuais, eu acredito que mesmo sendo mais nova eu posso tentar compreender temas e assuntos de pessoas mais maduras.
Um outro grande motivo da minha tensão era a minha apresentação de dança livre, ou seja, de improviso, ainda que fosse somente três minutos, me senti um pouco pressionada. Mas felizmente tudo correu bem, minha professora linda escolheu uma boa música e me emprestou uma roupa legal e a apresentação foi ótima, recebi muitos elogios e até algumas propostas. Resultado: senti-me toda orgulhosa e o stress evaporou.
Explicando a apresentação, eu fui uma das artistas que interveio na 4ª Conferência de Cultura de Várzea Paulista cujo tema era Diversidade Cultural e Fomento, que ocorreu neste sábado dia 22 na Câmara Municipal. Depois da minha apresentação, que foi uma das primeiras, sentei-me no fundinho e assisti a todo evento com muito interesse. Houve palestras, debates, outras intervenções artísticas, um intervalo com direito a lanchinhos deliciosos e a distribuição da 1ª Revista do MinC, que aborda os projetos inovadores do Ministério da Cultura.
Não acho que minha apresentação foi perfeita, mas, bem, ainda não sou nenhuma profissional, e levando em consideração que foi a primeira vez que dancei de improviso, acho que me saí muito bem. Minha professora elogiou o bom uso do espaço e a movimentação das mãos. Eu me vanglorio por ter me esforçado para não ficar de costas pra ninguém (pelo menos não por muito tempo) e por ter lembrado de sorrir. Quanto ao contato visual, bem, tenho certeza de que olhei para o público, mas, sinceramente, não enxerguei ninguém. Outro ponto que considero negativo é que repeti muitos movimentos, apesar da minha professora ter discordado disso.
Senhor, preciso dar um trato no meu cabelo.
Um momento engraçado do vídeo (pelo menos para mim) é quando vou passar pela rampa e penso “desastrada como sou, vou tropeçar nisso aí”, então paro de dançar, atravesso a rampinha andando e depois continuo a dança. Até que não ficou feio!
Bem, é isso aí, a prática leva a perfeição.
Fico por aqui,
Beijocas da Meh

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Chata

Sinceramente, parece que tiraram essa semana pra me azucrinar. Já ouvi sermão do meu irmão (“você é muito sentimental!”), da minha mãe (“quando é que você vai sair do mundo da lua?”), do meu ex (“eu não podia te dar o tempo que você merecia, como é que a gente podia ter algo sério desse jeito?”) e até da instrutora da oficina, que me desafiou a escrever algo totalmente inverso ao padrão que costumo escrever. Além disso, mais uma vez terei que usar uma roupa emprestada para fazer uma apresentação de dança. E não há condições pra eu entrar na faculdade, não vai dar pra arcar com os gastos de um curso.
Resultado: meu humor está péssimo. Estou arrasada. Sinto-me derrotada. E o pior é que eu não tenho ninguém com quem conversar.
Não estou acostumada com as pessoas me criticando, o que é muito ruim, pois sei que ouvirei ainda muitas críticas ao longo da vida, principalmente se quiser trabalhar nessa área de escrita e prestação de serviços. Meu irmão tem razão, sou muito fraca nesse sentido, preciso aprender a ser mais fria. E outra coisa que me prejudica é minha boca grande. Quando me dou conta, já ta falado, já era.
Infelizmente, não dá pra voltar atrás. Não adianta pedir desculpas. Não posso retirar o que disse. Não posso consertar o que fiz. Também não adianta ficar aqui lamuriando. Mas não quero partir pra outra. Ainda penso nele. Ainda sinto sua falta. Ainda to sofrendo com a frustração.
Queria poder chamar ele de bobo. Você sabe quem. Ele sabe porque.
O problema é que eu sou chata, e uma pessoa chata não gosta de deixar as coisas mal resolvidas para trás. Por isso a gente sofre. Porque nessa de querer colocar todos os pingos nos I’s acabamos ouvindo coisas que não gostamos, acabamos nos machucando.
Por que é que eu tenho que desejar coisas impossíveis? Dançar. Publicar livros. Fazer faculdade. Impossível, impossível, impossível.
Quero um chocolate grande, escuro e mega gorduroso, por favor.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Risco Incalculável

Pegou-a pelas mãos e correu para se esquivar das balas de borracha que atiravam contra eles. A garota ofegou e sorriu para ele, agradecendo. Depois ergueu seu cartaz e voltou a encher os pulmões para gritar em uníssono com a multidão em protesto.
Ele a olhou cheio de admiração. Pensou na faculdade de engenharia que seus pais estavam bancando. Seu carro novo estava estacionado logo ali na esquina. Era por ela que estava ali. O preço alto das coisas não afetava sua estabilidade financeira, mas sabia como aquelas pessoas inconformadas se sentiam, afinal tinha uma namorada linda que apreciava um estilo de vida ecológico e era democrata demais para não se juntar à manifestação que ocorria nas ruas do Brasil.
Todavia, sua inteligência matemática não foi o suficiente para calcular as consequências que o vandalismo e a violência ao seu redor podiam trazer para eles. Não foi ágil o bastante quando um pedaço de madeira arremessado por alguém lá de trás se chocou contra a cabeça dela.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Escarlate

Encarei os dias do calendário na tela do meu celular. Atrasada. Três dias. Era o suficiente para ter certeza? Um sinal anunciou o término do intervalo e me arrancou dos meus pensamentos. Tinha que voltar para a sala e me concentrar nos estudos. Era tudo o que eu podia fazer naquele momento.
Eu não podia ir ao posto de saúde sozinha, já que ainda era menor de idade. Eu podia juntar dinheiro e comprar um teste de gravidez. Eu podia ter tomando aquela pílula do dia seguinte. Ou melhor: eu podia ter conversado com a minha mãe e começado a tomar anticoncepcional antes de pensar em...
Minha mãe ia pirar. Ela vivia dramatizando a importância de conservar a nossa “pureza”. Eu nem estou comprometida.
Ainda me lembro da rouquidão presente na voz dele ao sussurrar palavras bonitas em meu ouvido. Ainda esperava que ele fosse aparecer na saída da escola. Mas eu sabia que ele não ia voltar. Eu sabia, mas não queria acreditar. Agora eu estava sozinha. Um dia vão me perguntar sobre o pai... E o que eu vou dizer?
Meu pai vai me matar. Vai me expulsar de casa. Vou ter que romper os estudos.
- Professora, licença, eu preciso ir ao banheiro.
Saí quase que correndo da sala de aula. Não podia permitir que me vissem chorando. Estava indo tão bem, fingindo que nada tinha acontecido. Já me bastava minhas noites mal dormidas. Os enjoos estavam se tornando cada vez mais frequentes. Uma hora iriam notar. A fofoca ia chegar ao ouvido dele. Ele me procuraria. Ou não?
Tranquei-me num compartimento do banheiro e comecei a soluçar baixinho. A barriga ia começar a crescer a qualquer momento, não podia esconder isso dos meus pais. Terei que fugir de casa. Ou isso ou eu cometo um crime. Eu, euzinha, uma assassina, já pensou?
Ouvi a porta sendo aberta, sufoquei o choro no mesmo instante. Levantei-me e grudei o ouvido na porta, pra ver seu ouvia alguma coisa. Foi quando vi: um filete de sangue vermelho e vívido descendo pela coxa direita. Em harmonia, as lágrimas vieram aos olhos, e dessa vez não me importei se me ouviriam, se comentariam. Um sorriso de alívio brincava entre meus lábios.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Gata Arisca

A primeira vez que eu a vi senti-me afobado, o nervosismo tomou conta do meu corpo e perdi a noção dos movimentos, atrapalhando-me. Chegara a cidade há três meses e até então não havia me interessado por nenhuma garota, até vê-la. Usava shorts curtos e blusinha preta decotada, estava descalça, sem maquiagem e com os cabelos castanho-avermelhados preso num coque mal feito. Ela era linda, e naquele momento eu soube: eu a queria. Mas não queria simplesmente “ficar” com ela. Sentir sua boca, seu cheiro e sua pele não eram suficientes para mim. Minha mente agiu rápida e sozinha com a consciência de que eu queria conquistá-la. Eu queria que ela se sentisse atraída por mim. Eu queria que ela me desejasse da mesma forma que eu estava lhe desejando naquele momento.

- Que morena linda, não? Com essa eu namoro. – não pude evitar o comentário com os amigos, mais tarde, ao voltarmos para casa.

Eles riram de mim.

- Fala sério, ela não é garota pra você.

O comentário me chocou, não tinha pensando desta forma até então. Uma moça serena, educada e toda meiga como ela se interessaria por um cara como eu? Criado nas praias de Recife, sem regras nem limites, vivendo em São Paulo apenas com o que carrega na mochila. Nunca que eu poderia levar a princesa pra pegar um cinema, ou comprar-lhe um presente.

Voltei na papelaria onde ela trabalhava alguns dias depois. Na realidade, inventava motivo para ir lá comprar alguma coisa, apenas para vê-la sorrir para mim toda acanhada. Como esperado, ela atendeu meu pedido de prontidão e logo depois mirou os olhos no gatinho que eu segurava nos braços.

- Mas que fofura! É seu?

- Encontrei ali na esquina, chorando de fome. Vou levar pra casa e alimentar.

- Posso segurar um pouco?

Passei o bichano para os olhos que brilhavam de ansiedade. Ela lhe embalou no braço como se segurasse um bebezinho, alisando os pelos de sua cabecinha com a ponta dos dedos. Não pude evitar tombar a cabeça de lado admirando seu gesto. Como eu queria ser aquele gato em seus braços naquele momento!

Notando que eu lhe observava, ela ergueu os olhos para mim com as bochechas rosadas.

- Estou te atrasando, não?

- Se eu pudesse não iria embora nunca – confessei – Mas tenho que ir.

Ela me entregou o gato e sorriu mais uma vez pra mim. Sustentei seu olhar por mais tempo que esperava.

- Voltarei para vê-la. – prometi.

Quase um mês se passou antes de finalmente nos encontrarmos a sós na avenida principal da cidade, longe de casa e com o dia escurecendo. Prometi-lhe buscar-lhe depois da aula e lá estava eu.

- Ei, morena, eu quero ficar com você. – disse de uma vez.

Ela me olhou assustada, as bochechas corando aos poucos, encarou o chão por um segundo e depois me tomou pelas mãos, puxando-me contra seu corpo. Seus lábios eram os mais macios e os mais doces que eu já havia provado. Eu poderia morrer naquele instante, pois morreria feliz.

- Era isso que eu queria. – suspirei contra seu pescoço, prendendo-a num abraço forte. - Obrigado por existir.

Não demorou muito para que eu me visse completamente apaixonado. Mas ela me parecia muito indecisa, dava bolo em nossos encontros, não atendia meus telefonemas. Cerquei-a de todos os lados, não podia deixá-la escapar.

Estava morrendo de vontade de vê-la, beijá-la e abraça-la quando nos encontramos no estacionamento do supermercado da cidade. Mal nos cumprimentamos antes de eu grudar minha boca na dela. Não podia deixar passar aquele momento.

- Humm, que boquinha boa de beijar. – disse, e ela sorriu, mas seu sorriso não alcançou os olhos. – Poxa, morena, eu queria te ver mais vezes. Queria que a gente fizesse alguma coisa juntos. Diz-me, o que você espera da gente?

Ela ficou calada por um momento, depois disse sem me olhar nos olhos:

- Esperaria algo, se soubesse até onde eu poderia ir.

Conforme o tempo passou, mais distante ficávamos. Antes não houvesse palavras. As conversas e as confissões só geraram mal entendidos. Principalmente pelo que não fora dito. Apesar de eu rodeá-la, ela estava sempre querendo mais.

- Oi, não vou poder ir na sua casa hoje. Espero que seu dia esteja sendo tão bom quanto você é pra mim. Você é incrível, está sempre pensando na gente. Obrigado por se lembrar de mim e, por favor, não fica chateada não...

Ela tinha tudo e ainda podia escolher. Eu não tinha nada e ainda precisei abrir mão dela.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O Dinossauro Lex

Obs. Dever de casa da oficina.
Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá, todo pomposo em seu tom esverdeado com a gravatinha preta. Ganhara o bicho do pai quando era apenas um bebê, a mãe lhe costurou a gravata conforme ele pedira e o irmão arrancou-lhe um pedaço do rabo com os dentes, por pura maldade. Chamou-o de Lex.
Ultimamente parecia haver algo de errado com o Lex, afinal toda noite ele se esgueirava para a janela do quarto e abria as cortinas. O menino acordava no meio da madrugada com a claridade batendo em seus olhos e aterrorizava-se com a sombra assustadora que tomava conta do quarto, quando na verdade era apenas a luz da lua contra o bicho de borracha sentado na janela e sorrindo para ele.
Espreguiçou-se enquanto se arrastava para fora da cama. Pegou o bicho, afagou sua cabeça e guardou-o na caixa de brinquedos. Depois calçou suas pantufas e foi tomar seu café da manhã.
Como sempre, a mesa estava posta, o pai já saíra para trabalhar e o irmão mais velho atacava a cesta de pães enquanto a mãe lava a louça.
- Bom dia meu filho – disse a mãe, sem olhar para trás.
- Dormiu bem? – completou o irmão com um sorriso zombeteiro no rosto.

Obs: O conto poderia ter terminado aqui.

O garoto resmungou algo em resposta e começou a preparar seu leite com chocolate. Dali a pouco teria que ir pra escola, depois para o curso de inglês e em seguida para o futebol. Teve um dia cansativo, tanto que não esperou entardecer para ir dormir, ignorando o computador e deixando o dever de casa mal feito.
Apesar de o cansaço tê-lo vencido, se pegou revirando-se na cama perturbado com um pesadelo. O dinossauro vigiava seu sono, mas ao invés de seus olhinhos vermelhos o menino via os olhos do pai.
De repente, um alto estralo lhe fez abrir os olhos e levantar da cama num susto, com o coração em disparada. Deitado no chão do quarto estava seu irmão, urrando de dor. Com a mão esquerda segurava o tornozelo, e com a direito apertava um bicho de borracha que cantarolava alegremente: “Sou um dinossauro, um dinossauro mau, se não se esconder, vou pegar você...”

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Vestida de Noiva



Eu queria ter uma avó com um álbum de fotografias da sua época, com imagens desbotadas e pessoas sem sorrir. Curioso, por que as pessoas não tinham um hábito de sorrir ao tirar fotos? Quando queremos registrar um momento é porque é um momento feliz, e se estamos felizes o sorriso é voluntário, não?

Sempre rio ao pensar que um dia direi aos meus filhos/netos que eu sou do tempo em que se usavam máquinas fotográficas. Hoje as pessoas desfilam por aí com suas câmeras digitais de alta resolução que cabem na palma da mão. Eu ainda tenho uma máquina fotográfica linda que ganhei da minha mãe quando era criança. Usei uma vez apenas.

Bem, pelo menos não sou do tempo em que os celulares pareciam tijolões, com tampinha e antena.

Os homens usavam bigodes e costeleta cumprida. Como isso lhes enfeiecia, se é que existe essa palavra. As mulheres pareciam não fazer a sobrancelha. Usavam pouca maquiagem, e quando usavam era um batom marcante ou blush demais. Gosto dos cabelos delas, sem cortes complicados ou banho de tintura, totalmente naturais e bonitos a seu modo. E os acessórios quase neutros. Os vestidos eram tão cheios de adornos que não era necessário muito. Os sapatinhos pareciam de bonecas. Buquê de copos-de-leite na maioria das vezes.

Jundiaí era Jundiahy.

Gosto de ver exposições e geralmente não levo mais que quinze minutos para ver os quadros e ler as legendas. São coisas que despertam minha curiosidade. Gosto de passar o tempo olhando, decifrando, tentando compreender, questionando. Essa exposição em particular me chamou a atenção por tratar de noivas.

Recentemente li alguns livros onde as personagens se casavam. Toda a tradição da festa do casamento me pareceu tão bonito. Pena que tal tradição esta se perdendo. Hoje as pessoas nem se casam, ou preferem a simplicidade do civil, ou fazem uma grande festa com roupas alugadas.

Aliás, num ato de ousadia (ou rebeldia?) aboli a maquiagem do meu dia a dia. Penteio as sobrancelhas, os cílios e hidrato os lábios. Perfeito. Decidi que quero pintar o rosto somente quando tiver a intenção de me expressar artisticamente.

Na realidade, não sei quanto tempo isso vai durar.

Minha mãe me zoa: “Se maquiada seus namorados fogem de você, imagina com essa cara de fantasma!”. Mas não quero um namorado. Ainda estou apegada no outro. Levo em média seis meses pra esquecer alguém. Ou pra pelo menos guardar no cantinho do peito.

Depois eles dizem que essas garotas de hoje em dia não querem nada com nada. Eles que ficam procurando a mulher certa nos lugares errados. E, não é por nada não, mas homens são lentos para pegar sinais.

Ah, Deus. Sou uma desiludida.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Oficina de Contos

A Academia Feminina de Letras e Arte de Jundiaí (AFLAJ) está promovendo uma Oficina de Contos ministrada por Jan Bitencourt, redatora publicitária, empreendedora e viciada em livros. Acontecerão quatro encontros com duração de duas horas nos dias de quarta-feira do mês de Junho na Casa da Cultura. O curso é gratuito é aberto ao público, sendo que foram formadas duas turmas de no máximo seis alunos cada com idade mínima de dezesseis anos. Ao final, todos receberão certificados.
Logo antes de começar o curso entraram em contato comigo solicitando duas atividades que deveriam ser levada prontas para a aula em duas vias. A primeira atividade era criar um nanoconto com até cinquenta caracteres utilizando uma característica minha como tema. A segunda era criar um miniconto falando um pouco sobre mim.
Todos sabemos que o conto é uma narrativa curta. Segundo Ana Paula do portal Info Escola, “o tempo em que se passa é reduzido e contém poucas personagens que existem em função de um núcleo. É o relato de uma situação que pode acontecer na vida das personagens, porém não é comum que ocorra com todo mundo. Pode ter um caráter real ou fantástico da mesma forma que o tempo pode ser cronológico ou psicológico”. Por vezes a crônica é confundida com o conto. A diferença básica entre os dois é que a crônica narra fatos do dia a dia, relata o cotidiano das pessoas, situações que presenciamos e já até prevemos o desenrolas dos fatos.
Os contos modernos são muito variáveis, como o próprio Mário de Andrade alega: “Conto será sempre aquilo que seu autor batizou de conto”. Segundo a Carta Capital escrita por Samir Mesquita e publicada em 2011, alguns teóricos definem os formatos de conto utilizando o número de caracteres como parâmetro – nanocontos teriam até 50 letras, sem contar espaços e pontuação; microcontos, até 150 caracteres e, minicontos, até uma página – mas ainda não há uma definição exata.
O que mais tenho são nanocontos publicados no twitter, mas como estava em casa sem acesso a internet tive que criar do zero. Fiz dois, ambos com assuntos já citados aqui no blog:

Passatempo

Destrinchando a complexidade da mente humana.

Incorrigível

Não me leve a mal, sou uma escritora romântica.




Quanto a segunda atividade, pensei em escrever um biografia em primeira pessoa no formato de conto, mas acabei preferindo criar um conto curto com introspecção psicológica em terceira pessoa:

A Arte da Palavra

Era uma garotinha solitária tentando compreender o mundo ao seu redor. Com lápis e papel, ela fez seu próprio mundo, descobriu amigos imaginários e encontrou um meio de matar seu grande tempo livre.
Era uma garota ingênua tentando descobrir o mundo ao seu redor. As noites ganharam vida, e as pessoas ficaram mais interessantes. Usando teclas e um monitor, ela reinventou o seu mundo, expandindo seus limites.
Era uma escritora publicada sendo descoberta pelo mundo ao seu redor. Tímida demais para falar em público, preferia o anonimato da internet. Contava suas histórias através de um diário virtual sem se deixar intimidar.
Um dia ela se cansou de ver suas palavras contorcidas pelo mundo ao seu redor. Encontrou na dança uma forma de se expressar sem a necessidade de usar palavras. Nunca mais parou.
O mundo ao seu redor começou a exigir mais e mais dela. Queriam que ela levasse a vida a sério, arrumasse um emprego digno, entrasse na faculdade e encontrasse um companheiro. Ela não quis.
Ela queria descobrir a si mesma através do mundo ao seu redor, definir uma identidade que a distinguisse dos outros, encontrar o seu lugar. Era uma sonhadora.

A primeira aula foi mais um encontro com trocas de experiências, indicações de leitura e apresentações informais por meio dos textos escritos. A Jan é muito simpática, e me parece uma ótima instrutora, já que ela fala o que precisa ser falado e nos estimula a fazer as atividades, melhorar nossos textos e, principalmente, passa dever de casa. Desde a escola, sempre admirei professores que passam dever de casa, não que eu goste muito disso, mas porque essa é uma forma do aluno exercitar o que viu em aula e trabalhar seu lado autodidata, já que não vai ter ninguém para lhe falar se ele está fazendo certo ou não, e ele não poderá simplesmente olhar para o lado e ver como o colega está se saindo.
Infelizmente, não fui muito bem nos meus nanocontos, mas eu já esperava isso. Quanto ao meu conto, todos observaram que eu gosto de escrever prosas poéticas, e apesar do meu textinho falar muito sobre mim, todos se atentaram ao fato de eu ter publicado um livro e me decepcionado um pouco com a experiência. Como já disse a vocês, não gosto quando ficam medindo minhas experiências pela minha idade. Tentei explicar que tenho facilidade para escrever histórias longas, e se escrevo bem é por que venho praticando essa atividade há muitos anos. Como sempre, eu era a mais nova da turma, ainda não entrei na faculdade e nem estou trabalhando, mas ficaria muito feliz em ser tratada com igualdade.
“Há dois tipos de idiotas: os que emprestam livros e os que devolvem”
A Jan tomou uma iniciativa muito legal de levar uma caixa de livros para comentarmos e pegarmos alguns emprestados. Sugeri de no próximo encontro levarmos nosso livros preferidos também. Além disso, todos ganhamos um livrinho de Contos Mínimos do qual a Jan é uma das autoras participantes, e a AFLAJ nos presenteou com um exemplar da coletânea que eles publicam anualmente. A Jan me indicou a leitura de Seminário dos Ratos de Lygia Fafundes Telles, do qual já li alguns contos, mas vou adorar reler. Também peguei Histórias Extraordinárias de Edgar Allan Poe e A gorda do Tiki Bar de Dalton Trevisan.
Pretendo levar para elas conhecerem os seguintes livros:
  • O Livro dos Manuais – Paulo Coelho: Textos simples carregados de ironia que não me canso de ler.
  • Raiz Forte – Lemony Snicket: Ótimos microcontos, um dos meus livros favoritos. Terei que pegar emprestado na biblioteca.
  • As Amoras – Lygia Fagundes Telles: No qual o primeiro conto é o original da Lygia e os outros são de outros autores usando o tema utilizado no conto da Lygia como ponto de partida.
Como dever de casa ela nos passou as seguintes atividades:
  1. Escrever um conto usando como base o texto lido (do livro que ela indicou).
  2. Transformar o seguinte microconto num conto: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”Augusto Monterroso, autor deste primeiro, e talvez o mais famoso, microconto.
Em sala de aula fizemos uma atividade muito legal que era colocar-se no lugar de outra pessoa do grupo e escrever um microconto em primeira pessoa contando um segredo. Quem me conhece sabe que eu primeiro penso e depois começo a escrever – e não paro mais. Isso causou alguns risos na sala que me deixaram um pouco acanhada. Caramba, me senti na sala de aula do ensino fundamental de novo (no ensino médio todos já haviam se conformado).



Resumidamente, tínhamos uma publicitária amante de livros; uma advogada que em casa é maezona e adora ler lendas como as histórias dos Irmãos Grimm; uma mulher que inacreditavelmente trabalha na área de exatas, com contabilidade; uma moça que está cursando o último ano da faculdade e é muito boa com poesias e uma outra moça entre vinte e trinta anos que já tem certa facilidade para escrever contos. Ah, e eu.
Eis meu texto:

Reflexo

Sinto que cubro o rosto com uma máscara pelo medo dos outros descobrirem quem realmente sou, o que realmente penso e não gostarem.
Estudo a matéria e o conteúdo que expõem para mim e tento descobrir-me através da leitura, mas temo escrever sobre eu mesma, não quero que me estudem e descubram o que guardo na mente e no coração.
Meu segredo é tão cabeludo que nem eu compreendo inteiramente. Não sei ao fundo quem sou. Tenho medo de rebelar o que faz parte de mim.
Sou um amontoado de causos e tramas que ilustram um passado assombroso. Sou um homem com jeito de mulherzinha.

E, com isso, fico por aqui. Aguardo ansiosamente pelas quartas-feiras que virão, espero beneficiar-me muito dessa oficina, tenho como propósito reciclar-me através das ideias de terceiros. E como é gostoso receber instrução de pessoas mais experientes! Como é gostoso receber críticas construtivas. Logo nesse primeiro encontro pensamos em fazer uma exposição dos trabalhos feitos, vamos ver se essa ideia amadurece. Poderíamos publicar um livro com uma tiragem mínima de trinta exemplares, apenas para usar como lembrancinha. Ou poderíamos fazer um blog para publicarmos os escritos e um comentar o que o outro escreveu, como fez recentemente minha professora Valéria Lopes ( Blog Viajando na Leitura). Enfim, vamos deixar rolar.

Beijocas da Meh

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