segunda-feira, 1 de abril de 2013

Tinto e Suave

Puxei a manga do paletó e consultei a horas, ansioso. Ela estava atrasada. Fiz sinal para o garçom e solicitei uma água com gás, para matar o tempo. Detestava quando ela se atrasava. Observei as obras de arte por entre as janelonas que decoravam o ambiente, ignorando os ponteiros que avançavam. Minha água com gás acabou. Mandei-lhe outra mensagem de texto, tentando não demonstrar minha impaciência. “Calma, meu amor, estou chegando” disse ela, em resposta.
Aquele era meu horário de almoço, que eu prolongava um pouco quando me encontrava com sua companhia, mas tinha outros compromissos ao longo da tarde. Dali a três horas teria uma conferência online e precisava me preparar. Ela parecia não se importar. E era esse seu jeito despreocupado, livre, leve e solta, que me encantava. A vida parecia outra quando eu estava com ela. Não nos víamos com frequência, eu trabalhava muito. Mas quase toda semana escolhíamos um restaurante diferente para nos encontrar.
Enquanto pensava com meus botões, uma moça linda entrou no restaurante, dirigindo-se ao metre. Os cabelos longos e negros estavam soltos e volumosos sobre suas costas. Usava um macacão cor-de-rosa e calçava um escarpem com pele de cobra. Ela tirou os óculos escuros para falar com o metre, ele apontou para a mesa onde eu me encontrava e ela voltou-se para mim. Suspirei aliviado e meu melhor sorriso veio a face, toda aquela aflição desaparecendo de imediato. Era impossível ficar bravo com aquela morena.
Levantei-me e puxei uma cadeira para ela se sentar, como bom cavalheiro que eu era. Um garçom nos trouxe os cardápios, citando os pratos especiais com um sorriso no rosto. Pedimos uma refeição a lá carte e solicitamos a cartela de vinhos. Era um restaurante italiano com o qual já estávamos familiarizados, o preferido de minha acompanhante. Ela adorava massa e carne vermelha. Adorava coca-cola e vinho. Adorava ser tratada como princesa. O vinho era para descontrair e caracterizar o momento. Sempre pedíamos o da casa ou o que o metre sugerisse para marcar o restaurante.
Enquanto nossa refeição era preparada, o garçom serviu as entradas. Ela colocou seu guardanapo sobre o colo com delicadeza, e guardou a bolsa no outro assento. Ignoramos o buffet de salada e avançamos sobre os palitinhos integrais com gergelim, a mussarela de búfala e os pãezinhos de alho sobre a mesa. A conversa rolava solta e descontraída, e isso era o que eu mais apreciava em nossos encontros, a maneira como o papo fluía naturalmente.
As taças foram postas na mesa, e o garçom sacou o rolha da garrafa de vinho e me ofereceu para sentir o aroma. Em seguida, colocou uma pequena quantidade em minha taça, para que eu provasse. Fiz movimentos circulares com a taça e bebi, o líquido fresco e vermelho desceu pela minha garganta. Estava na temperatura correta, o cheiro e o gosto da uva sobrepondo-se ao álcool. Tinto, suave e doce, do jeito que minha acompanhante preferia. Seguido o ritual, o vinho fora servido, um pouco acima da metade da taça para ambos.
Como sempre, o desejo falava mais alto e ela experimentava o vinho antes de brindarmos. Ria, sentindo-se culpada.
- A que brindaremos hoje?
Sua viagem, seu aniversário, suas realizações. Sempre havia um motivo. E o motivo sempre era ela. Colocou sobre a mesa os livros que lhe comprei de presente. Ela era uma leitora nata, rata de biblioteca. Não se encantava com flores e joias. Apreciava um bom romance, uma boa tela de cinema e consumia chocolate todos os dias. Nossos pratos foram servidos, e o garçom nos desejou bom apetite. A orquestra ao fundo embalava nossa conversa, não sentíamos o tempo passar.
- Gostei da mensagem de hoje – disse ela, sincera.
Eu me aproveitava das minhas habilidades como poliglota para todo dia desejar-lhe bom dia numa língua diferente. Amantes da língua portuguesa como éramos, gostávamos também de enumerar nossas palavras favoritas entre os e-mails. Um entretia o outro no quesito cultura. Nunca nos faltava assunto. Para mim, ela estava sempre linda, digna de adoração. Para ela, eu estava sempre elegante e charmoso, eu sabia pelo modo como ela me media quando nos encontrávamos. Eu lhe embebedava de versos, citações, elogios. Seus olhos pretos brilhavam, deliciando-se, esbaldando-se com tudo aquilo.
Mas aquilo tudo não passava de aparências.

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