terça-feira, 13 de novembro de 2012

Garota de Programa

A maneira como ela se agarrava àquele pedaço de metal, esfregando-se nele como se fosse mais do que isso, realmente não deixava a desejar. Tudo em si era um atrativo, a maquiagem valorizava os traços fortes de sua face, a lingerie destacava suas curvas. Mas, além desses apetrechos, ela tinha um jeitinho sedutor que excitava qualquer um, homem ou mulher. Ela sabia como dançar, para quem olhar e como olhar, como mover os lábios, como fazer para ser desejada.

Era ela quem escolhia seus clientes, mas eles não sabiam disso.

Cada gesto era uma armadilha, e quando dei por mim estava sob o seu domínio. Pelo menos era isso o que eu queria. Manoela, era esse o nome dela, pelo menos fora isso que me dissera. Era uma garota jovem e esbelta, que sabia e fazia bem a arte de encantar. Manoela sabia exatamente qual tom de voz usar e em que momento usar, sabia quando agir e como agir. Talvez sua experiência nas casas noturnas da cidade havia lhe ensinado a usar e abusar de estratégias.

Estratégia: uma palavra que estava entre as suas características. Todavia, noite após noite, de trabalho e diversão acabamos criando um romance. Pelo menos de minha parte, ela mantinha seu jeitinho profissional.

Quando nos tornamos mais próximos de alguém captamos costumes e manias que quem é de fora não é capaz de notar. Manoela era calculista, sabia exatamente como administrar seu dinheiro. Ela sonhava em fazer faculdade. Quando o cliente era bom, ela procurava não encontra-lo mais, para não se entregar demais, tinha que por limites em seus desejos, em seu ofício não era ela quem tinha que sentir prazer, seu papel era unicamente satisfazer.

Isto é como entre homens e mulheres, afinal são de sexos opostos, criados para se relacionar. Quando se correspondem na cama, nasce a paixão no cotidiano. Quando há afeto no relacionamento, nasce a apetite sexual. Todavia, a diferença é que os homens não precisam de paixão para sentir o desejo carnal, e para as mulheres sexo bom não basta. Os homens tem uma capacidade incrível de envolver-se sem estar envolvido. As mulheres tem uma capacidade incrível de fazer sexo com indiferença. São comportamentos distintos: eles valorizam demais a relação carnal, elas não. Para elas, sexo é consequência.

Os homens que se prostituem não são bons amantes. São artificiais demais. Elas se divertem, é claro. Realizam todas as suas fantasias perversas. Elas se divertem.

Ao contrário dos homens, vulneráveis aos desejos da carne, as mulheres sabem se conter, quando querem. Sabem envolver, quando querem. Cativar faz parte da natureza delas. Nós, meros humanos masculinizados, somos apenas brinquedinhos frágeis em suas mãos.

(N.A.) Momento eu com raiva da raça masculina.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Lar


O lar de uma pessoa é como um delicioso pedaço de torta que você pede no restaurante de uma estradinha campestre em uma noite agradável — o melhor pedaço de torta que você já comeu na sua vida — e que nunca mais encontra de novo.
Depois que você sai de casa, pode sentir saudades do lar, mesmo se estiver numa casa nova que tem um belo papel de parede e uma lavalouças mais eficiente que a da casa em que você cresceu, e não importa quantas vezes a visite poderá nunca realmente vai se curar da sensação palpitante de saudades no seu peito.
A saudade do lar pode atacar até quando você ainda está vivendo no seu lar, porém é um lar que mudou com o passar dos anos, e você sente falta do tempo — mesmo se esse tempo só existiu na sua imaginação — em que o seu lar era tão delicioso quanto na sua lembrança.
Você pode procurar na sua família e na sua mente — assim como pode procurar em estradinhas campestres escuras e sinuosas — tentando recapturar a melhor época da sua vida, para poder curar a sua saudade do lar com um segundo pedaço daquela torta de um sonho distante, mas a sua busca terminará em vão, pois você perdeu o mapa que lhe dizia onde virar, e o restaurante pegou fogo há muito tempo, e a cozinheira que fez a torta se cansou de esperar por você e em vez disso dedicou a vida a fazer massa de tomate, mas ela não é muito boa nisso, e agora você está perdido na vida, as trevas se fecham sobre você, sem nada a não ser uma palpitação triste no peito e um gosto amargo na boca.
Lemony Snicket: Raiz Forte

sábado, 3 de novembro de 2012

Marian Keyes

Obs. Esse texto contém muuuuito spoiler o.O


Marian Keyes. Eu adoro os livros dela, é mais fácil falar quais eu gosto menos, mas favoritos eu não tenho, amo todos.

A Marian escreve comédias românticas. Ela usa a comédia para narrar sobre temas muito sérios. Ela nos faz rir e chorar com a mesma intensidade. A gente se delicia com a leitura, mesmo quando se trata de um trecho que você sabe que não acrescenta nem subtrai nada na história.

Ela utiliza uma das técnicas que mais amo, quando o narrador tem essa introspecção psicológica. Ele narra e pensa. É muito bom. Todos seus livros são assim.

O primeiro livro que eu li dela se chama Sushi, o romance conta a história de três mulheres distintas, que vivem realidades diferentes. É narrado em primeira pessoa (mais ou menos como fiz em MDD). Uma, a Ashley, é uma mulher romântica, que trabalha numa revista de moda e tem tendência à depressão, ela se apaixona pelo editor. A outra é uma mulher independente, autoconfiante e fria, que está passando por um divórcio, editora da revista de moda. E a terceira eu não me lembro bem, mas era uma personagem mais normalzinha. O que mais me encantou na história é que num determinado momento as três se veem na mesma situação, vivendo o mesmo dilema, passando por um colapso nervoso de mesma intensidade, ainda que por motivos diferentes. Neste momento a gente se dá conta que, independente da classe social ou dos dramas de cada uma, são todas humanas, são todas mulheres frágeis e apaixonadas.

Ah, eu tenho que falar de Férias. Nesse livro, a família de Rachel a interna numa clínica de recuperação por dependência química. Ela era uma viciada em cocaína e não sabia. E o pior é que nem a gente se dá conta, realmente acreditamos na sua palavra, achando que cometeram um engano em colocar a pobrezinha no meio daqueles viciados. Mas ao longo da história ela vai alternando entre o presente (repulsa pelo lugar) e o passado (como conheceu o namorado, as festas com os amigos, seu envolvimento com a família). Mais para o final, numa das terapias em grupo, as mesmas lembranças se repetem, mas sob a versão de outras pessoas (seu namorado, sua amiga, sua irmã), e nos damos conta de como ela estava mal. No final ela ainda tem uma recaída logo depois de sair da clínica, mas depois se recupera novamente. É uma história de superação, e vi muito da autora ali.

Marian Keyes é uma escritora irlandesa formada em direito, sem, contudo, jamais ter exercido a profissão. Morou em Londres por muitos anos, trabalhando ora como garçonete ora em escritórios. Neste mesmo período começou sua luta contra o vício do alcoolismo e, inclusive, uma tentativa de suicídio. Depois de vencida a batalha, alcançou o sucesso como escritora e mora em Dublin com o marido. Seus livros exploram o universo feminino com muito humor e leveza. Seus temas centrais no entanto levam a tona muitos assuntos delicados. Fonte: Wikipédia

O que a fez estourar foi a publicação de um dos seus primeiros livros, Melancia, dá para ver nesse livro que ela ainda não estava a vontade para escrever. O livro conta a história de uma mulher cujo marido pede o divórcio no instante em que ela ganha o primeiro bebê. Ela passa o livro inteiro melancólica, sofrendo pelo casamento arruinado, se culpando. Então ela se apaixona novamente, mas assim que se marido lhe procura ela volta para ele. Ele aponta todas as suas falhas, diz que se ela quiser que fiquem juntos novamente vai ter que ser mais reservada, mais dona de casa, uma boa esposa.

E essa é a parte melhor: Ela se dá conta de que não quer isso. Não quer ser a pessoa que ele deseja, quer ser ela mesma. Então ela se dá conta de que não lhe ama mais, e termina com ele lhe falando coisas horríveis (que homem que é você que abandona a esposa grávida?), corta todas as relações com ele e volta para os braços do gostosão que ela conheceu em Dublin.

Seus personagens mais conhecidos são o da família Walsh, ou seja, há cinco romances, e cada um conta um fato importante que aconteceu na vida de uma das cinco filhas Walsh: Rachel, Claire, Magh, Annah, Hellen.

Vamos ao da Magh: ela era casada com um homem maravilhoso, e criticada pelas irmãs por sempre ter sido a mais certinha. O casal estava tentando ter filhos, sem sucesso, e eis que ela descobre que seu marido está lhe traindo. Amargurada, ela vai para Los Angeles, onde vive altas aventuras, digamos assim. Ela faz de tudo, até fica com uma mulher! É muito gostoso esse processo de libertação dela. Mas então seu marido vai até ela, implorando para ela voltar para casa, que ele lhe ama e será fiel a ela para sempre, e ela percebe que lhe ama o suficiente para querer voltar, e que acredita no seu amor o suficiente para perdoá-lo. Dois meses depois ela consegue engravidar. E o barato de tudo é que ela é roteirista =)

O último que li da família Walsh é o da Annah, a caçula, de trinta e poucos anos, chamado Tem Alguém Aí? Passei metade do livro perguntando-me por que seu marido foi embora, por que ele não volta - se lhe ama tanto, por que ele a deixou nesse estado deprimente... E eis que descubro que ele não vai voltar, nunca mais, pois ele está morto. Foi um choque daqueles, afinal ela havia narrado todo o desenrolar do romance dos dois, e eu estava rindo a beça até então, quando fui surpreendida por tal tragédia. O livro perdeu a graça para mim depois disso, entrei em estado depressivo como a personagem, rs. Ela não se apaixonou novamente, nem se esforçou para superar, o mais louco que fez foi ficar tentando se comunicar com o outro mundo.

A autora costuma usar citações de filmes e livros para descrever uma situação ou uma pessoa e até copia falas, expressões muito populares, deixando a história bastante interessante. Por exemplo, tem uma parte que a personagem estava num encontro com um cara e pensa: “Eu estava diante de um homem que assistira ao filme Chocolate pelo menos cem vezes. (...) Agora era 9¹/² Semanas de Amor. Isso era demais para minha cabeça.”, ou seja, ela presume quais filmes aquele cara curte para se comportar daquela maneira.Neste final de semana conclui a leitura de A Estrela Mais Brilhante do Céu. É engraçado os títulos que a Marian escolhe para seus livros, geralmente eles se justificam em uma linha, no máximo uma parágrafo, no meio das 600 páginas. No caso, este se chama assim porque em alguma parte o personagem diz, tentando conquistar uma moça: “Você sabia que a estrela mais brilhante do céu não é uma estrela, e sim um planeta? É Vênus, o planeta do amor”. O livro se baseia na filosofia de que morte e vida andam lado a lado.

O livro aborda cerca de 5 histórias paralelas, mas os personagens se encontram e desencontram de alguma forma. No início, achei que era narrado pela morte, mas é totalmente o contrário, o livro é narrado pela vida tentando localizar um casal que se amam de verdade para vir ao mundo como um bebê. O casal abençoado é um homem de 42 anos que trabalhava além da conta, mas renegou seu vício por Katie, uma mulher que acaba de completar 40 anos e se sente amarga por não ter casado e tido filhos.

Outro casal é o Matt, gerente de vendas numa empresa de software, e Maeve, uma mulher do campo que sofre abuso sexual pouco tempo depois de se casar com Matt, e sofre muito por ninguém ter acreditado nela, por que o cara que a estuprou era seu ex-namorado, um cara muito querido por todos. Esse abuso faz com que ela tenha uma fobia de homens, e ela praticamente para de ter relações com Matt. O coitado do Matt perde a vida social, vai mal no trabalho e ainda tem que aturar a pressão da família, pois ninguém sabe o que houve com Maeve a não ele, os policiais que não prenderam o cara, e as melhores amigas dela que não acreditaram nela. No final do livro ele tenta se matar, e isso faz com que Maeve desperta para o lixo que a vida dela estava, e eles são abençoados com um bebezinho. (Eles fazem uma rotina diária interessante que consiste em fazer uma boa ação para alguém e anotar três bênçãos no final do dia. É para estimular a motivação na vida).

E há uma senhorinha, me identifiquei muito com ela. Ela é bastante sensitiva, mas não se rotula vidente, diz que enxerga o óbvio devido aos seus anos de experiência. Apesar de solitária e um pouco ranzinza, ela é bastante respeitada pelos demais moradores, e tem um coração muito bom. Ela tem um cachorro com cara de burro que é muito esquisito e se chama Rancor. Quando foi no canil adotar um cachorro todos ficaram surpresos por sua escolha. Sua justificativa foi: “Cães equilibrados sempre encontrarão um lar, mas são os estranhos que realmente precisam de um”. Ela tem um filho adotivo que é jardineiro e se apaixona e desapaixona muito rápido. Ele atribui significados as plantas, ervas e sementes e é apresentador de um programa de jardinagem. Sempre se envolve com mulheres comprometidas. Sua mãe verdadeira morreu aos 30 de câncer, e ele nunca superou isso, por isso, mesmo tendo 27, prefere mulheres acima dos 30. Para ele, elas são mulheres vitoriosas.

E tem a Lydia, que é uma figura. Ela é baixinha, turrona e motorista de taxi. Descobriu que seu namorado saia com outras mulheres, terminou com ele, transou com o cara com quem dividia o apartamento mesmo odiando ele, começou a namorar um homem rico só porque ele era rico e terminou com ele quando percebeu que ele amava outra mulher, então começou a namorar um músico pobretão, não, namorar não, só transar com ele. Mas toda sua frieza tinha um motivo, Lydia carregava o fardo de uma família grande e inútil. Descobriu que a mãe não estava bem da cabeça, mas ninguém quis acreditar nela, nem o médico, e ela ficou praticamente em apuros por quase um ano. Somente quando a mãe quase morreu por puro descuido foi que seus quatro irmãos voltaram a atenção para ela e o médico reconheceu o erro. Sua mãe estava ficando demente. Todo livro tem forma de narrativa, logicamente, mas há 4 capítulos que contém somente uma lista: 1ª Coisas que lydia odeia, não necessariamente nessa ordem (segue uma lista extensa), atenção! Essa não é uma lista completa. A mesma coisa se repete na segunda lista. 3ª Coisas que Lydia ama, não necessariamente nessa ordem (segue uma lista de no máximo cinco itens), atenção! Essa é uma lista completa. E, finalmente, a quarta lista é mais uma continuação das coisas que ela odeia. Ri muito com isso.

Enfim, eu indico Marian Keyes, porque ela é fabulosa, e seus livros tem tudo a ver comigo, apesar de eu ser bem mais nova e viver situações completamente diferente das suas personagens. O próximo que lerei é Cheio de Charme.

Obs. Quem quiser acompanhar meu relatório de leitura, me adicione no Sckoob =)


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