terça-feira, 18 de setembro de 2012

Balada


Era quase três horas da madrugada, e eu estava começando a me entediar com a altura da música eletrônica e com a dancinha sensual que minhas colegas insistiam em fazer, na esperança de atrair um macho que tivesse carro para leva-las para casa.
Não que eu fosse uma garota sem o menor senso de humor. Mas queria mais da vida, mais do que noites e papos furados. Todavia, para isso, precisava abrir mão das baladas sem fundamento e me afastar daquelas cabeças ocas que se embebedavam sem motivo.
Por um momento, senti-me sozinha. Minha família só sabia me julgar, cada um a seu modo. Meus patrões não reconheciam meu esforço no trabalho. E as amigas... Bem, elas estavam presente quando o assunto era diversão, mas se ausentavam na minha semana especial, quando o dinheiro acabava e quando eu sofria uma dessas frustrações amorosas toscas.
Queria uma amizade sincera, para me acompanhar em meus passeios e viagens, me ouvir e contar comigo quando necessário. Queria um amor romântico, fiel e até meloso. Queria uma família unida, que me acolhesse e me deixasse acolher. E queria sexo, claro, sentir aquele prazer único que a gente não mede nem domina.
O som continuava se elevando à medida que o efeito da bebida passava. Estou cansada, quero ir pra casa, queria dizer, mas não me ouviriam. Riam a toa e me puxavam para dançar uma dança sem sentido. Peguei mais uma cerveja, vamos lá, anime-se, é sábado, você é jovem e bonita e inteligente, sabe disso. Não preciso disso, não preciso delas, a cama está bem mais confortável, sem polícia no final da noite...
Encarei as pessoas a minha volta. Um dançando, um beijando, um caindo, outro dando amassos contra a parede, um bebendo pela décima vez, o copo trocando de cor. Parei num deles, que me encarava de volta. Era bonito, esbelto, parecia sozinho, talvez os amigos se meteram numa briga, ou a namorada trouxa foi ao banheiro.
Virei o rosto, fiz cara de pouco caso, olhei-o novamente e ele continuava com os olhos parados em mim, o semblante cansado, mas feliz e sensual. Mexi a sobrancelha, um gesto leve e quase imperceptível, mas ele pegou, piscou de volta, fazendo pose. Não aguentei e sorri com aquela situação hilária. Não queria beijá-lo, estávamos no meio da noite, quantas mais havia beijado?
Mas o riso me entregou, como se houvesse correspondido a paquera, ele sabia que eu desejava. Quis dançar com as amigas, não queria parecer brega, elas nada percebiam o que rolava ali. O DJ trocou a música, era a batida perfeita. Um passo, dois passos em minha direção. Não, não queria beijar ali. Fui até ele, amassando-me contra a multidão esmagadora, quase perdi-o de vista, mas ele estava ali, ao meu encontro, usando uma camisa com uma leve estampa xadrez. Joguei meus braços em seus pescoços, sem tempo para conversinhas fiadas.
E nos beijamos. O gosto doce e gelado da bebida envolvendo os lábios e a língua, aquele aperto gostoso na cintura para não me perder na multidão, o carinho nos cabelos, fazendo-me amolecer o corpo e a feição. Fechei os olhos, e a música diminuiu, os murmúrios a minha volta diminuíram, tudo o que eu ouvia era sua respiração descompassada contra a minha.
A paquera, na balada, é curta e forte, ágil o suficiente para ser transmitida com olhares. Mas os beijos de balada são longos e inesquecíveis, como se soubéssemos que nunca mais fossemos nos ver novamente, por isso dávamos o melhor de nós naquele momento, para eterniza-lo. “Beijei um cara...”, contamos mais tarde.
A noite acaba ali. Depois de uma ficada sensacional, simplesmente perde a graça. No outro dia a enxaqueca nos faz reconhecer que não foi um sonho, mas a mesma enxaqueca nos traz de volta para a realidade. Para fugir dela, somente na próxima balada.

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