sábado, 19 de novembro de 2011

Oficina de Criação Literária com João Carrascoza

Romancistas, cronistas, contistas e poetas ministraram uma oficina de 4 horas para aqueles que tem interesse em desenvolver e/ou aprimorar o fazer literário. Por meio de leituras, bate-papo e produção escrita, os participantes tiveram a oportunidade de aprender e de trocar ideias com um autor consagrado, bem como conhecer técnicas e teorias relacionadas à arte de escrever.

Esta oficina foi ministrada por diversos autores, e distribuída em várias cidades, cada qual com seu tema. O número de vagas era somente 30, mas adivinhem? Minha cidade promove tanto a cultura que 10 pessoas apareceram. Ás vezes penso que sou anormal, por que eu era a única adolescente (pelo menos até a metade do curso) no meio de um monte de adultos, formados e tal. Aqui em Várzea Paulista, contamos com a presença de João Carrascoza, e o tema da oficina era o Conto.

Contos
Diferente do romance, que é irrigado por vários rios-histórias, o conto é apenas um riacho. Gênero que exige economia, ritmo e tensão, o conto desde a primeira linha chama, acena e convoca para o final. O objetivo desta oficina foi apresentar algumas modalidades da narrativa breve e motivar os participantes, com exercícios de sensibilização, a mover as águas de seus riachos ficcionais.


A oficina contou com leituras, citações, atividades dinâmicas e um bate papo superinteressante. O João Carrascoza aparenta ser velho, mas é um homem cheio de energia, carismático, que discursa maravilhosamente bem e que sabe ser engraçado quando quer. A maneira como ele explicou o prazer da escrita e da leitura me cativou, pois ele falou em 4 horas tudo o que falo durante anos aqui neste blog.
Nota: Por que todo artista se veste como se estivesse em casa?


João Carrascoza
Escritor, redator de propaganda e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, onde fez mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação. Publicou os livros de contos O Vaso Azul (1998), O Volume do Silêncio (2006), Dias Raros (2009), Espinhos e Alfinetes (2010), entre outros, além de novelas para o público infantojuvenil. Dos prêmios que recebeu destacam-se o Guimarães Rosa/Radio France Internationale e o Jabuti.

Certo. Vamos ao Curso.



Começamos nos apresentando. Fiquei meio sem graça por ninguém se admirar por eu ser escritora e dançarina. Geralmente as pessoas me olham com interesse quando conto isso.
Adorei o curso, as atividades propostas, o diálogo que fez sumir a distinção entre o aluno e o professor. Dentro de sala de aula, a imaginação se torna limitada por termos que seguir um padrão. A criação de texto nas escolas deveria ser estimulada por outro meio.
Fiquei admirada com a diversidade de textos que saiu dali. Isso é apenas uma prova de que todos nós temos um escritor dentro da gente. Afinal, escrever é expressar.


Naquele dia, ao caminhar para casa, eu chorei. Por que? Por que me identifiquei. E pensei comigo "Ah, se eles soubessem!"

Conto
  • Definições do conto
* O conto pode ter poucos elementos, mas precisa ser profundo
* O conto é um texto justificado: Nada pode faltar, nada pode transbordar
* O conto é o registro de uma cena
* Literatura é como pintura: Você pinta com palavras cenas do cotidiano
Nota: A literatura em si (independente do tipo de texto) é um diálogo entre a tradição e a modernidade

  • Classificação do conto
Conto Clássico: Conto extenso, com 5, 10, 20 páginas.
Short Story: Conto curto, concentrado. Cerca de 20 linhas a 2 páginas.
Microconto: Conto contado em uma linha, duas linhas. Tipo o que fazemos no Twitter, com 140 caracteres.
Nota: Quanto mais curto, mais difícil.
  • Personagens
Tipos: Personagens com uma personalidade definida.
Arquétipos: Personagens que representam modelos de pessoas (o herói, o vilão, a depressiva, o engraçado, etc).
Estereótipos: Personagens básicos, que não evoluem dentro da história.
Nota: Qualquer coisa que pensa pode ser um personagem: Objetos, pessoas, animais, etc.
  • Foco Narrativo
1ª Pessoa: Personagem principal/Personagem secundário
3ª Pessoa: Narrador observador/Narrador onisciente
Nota: Você não lê o romance. Você lê o romancista. Ele está escondido atrás do narrador que, por sua vez, se esconde atrás da história.
  • Ação: Algo que empurra
  • Enredo: Habilidade de jogar o leitor na rede
  • Tempo: Pode set cronológico ou psicológico. Saiba mais em:

Nota: Num texto, é preciso saber jogar com o tempo

  • Processo de Criação
- Sua história depende do potencial da sua observação
- Não basta ler. É preciso ganhar um olhar da literatura pela lente da sensibilidade.
- Não se cria personagens. Eles são pescados da realidade.
- É preciso cativar. Quando você cativa, você atrai o leitor, você lhe convida a ser seu leitor.
- Criar um texto é dar uma resposta para o mundo
- Texto é construção. Ele não desce pronto para o papel.
- Preste muita atenção aos detalhes: Cada detalhe é significativo num conto.
- O final precisa surpreender. O papel do desfecho é iluminar a história inteira.
- Deixe de ouvir a voz do seu ídolo para poder ouvir a sua própria voz.


Leituras e citações
Dinâmicas
O autor/professor criou algumas dinâmicas para estimular nosso lado criativo. A atividade nos mostrou que:
  • A inspiração pode vir de qualquer lugar
  • Um texto bom é um texto que contagia
  • Cada texto traz o seu universo
  • O épico pode trazer poesia, mas o que o desclassifica como poema é o fato de contar uma história
  • Cada um é bom a seu modo
  • A leitura se faz individualmente. A escrita, da mesma maneira, é clandestina.
As atividades propostas, que podem ser utilizadas em sala de aula, foram as seguintes:
  • Demos a mão a pessoa que estava ao nosso lado, e começamos a escrever com a outra mão tudo o que viesse em nossa mente. Ao seu mandato, soltamos as mãos, mas continuamos a escrever. Confira minha criação aqui.
  • Criamos um texto que se referi-se a nossa fruta predileta. Confira minha criação aqui.
  • Tentamos nos lembrar de um cheiro que marcou nossa infância e transportamos essa recordação para o papel. Confira minha criação aqui.
Através dessas simples atividades, podemos tirar grandes lições.

O que mais gostei no curso foi que ele não se restringiu ao tema proposto (conto), ele fez referências a obras de pintura, novelas, quadrinhos, poemas, romances... enfim, uma diversidade artística. Amei.

Morango

Coloco os lábios sobre a fruta pequenina e apetitosa e fecho os olhos.
O sabor doce alcança a língua e o líquido deste escorrega pela garganta, trazendo uma sensação maravilhosa.
Abro os olhos, lambo os beiços e sinto os pés no chão. Preparo-me para a próxima mordida, para fundir o vermelho da fruta ao vermelho dos meus lábios, para entregar-me ao próximo devaneio e, enfim...
Esvoaçar.

O cheiro da paz

Senti a brisa contra o rosto e me entreguei a ela, sendo guiada até um bosque. Ali, o canto dos pássaros e a calmaria do local abrigou minha solidão.
Até hoje, sempre que me encontro num local semelhante, seja uma praça, uma cachoeira ou um campo, eu respiro profundamente e fecho os olhos. É como se eu estivesse inspirando a paz.
É uma sensação boa que me faz voltar a escuridão confortadora do bosque. É um cheiro inexplicável, tanto que às vezes penso que só eu posso sentir, pois fui eu que vivi aquele momento.

O Aperto de Mão

Sinto a superfície da mão do outro junto a minha. A textura é macia, todavia firme. Sinto-me tensa por segurar a mão de um estranho, mas o contato nos aproxima, estabelece vínculo, talvez o início de um diálogo, uma amizade. Assim se faz ante um contato profissional, ou o que quer que seja ao encontrar um desconhecido: Apertar-se a mãe. Um cumprimento.
Mas este cumprimento pode significar muitas coisas. A maneira como o fazemos pode ter muito a dizer. Através dele podemos expressar nosso humor, nosso companheirismo para com a pessoa, podemos distinguir o gênio da outra pessoa.
O aperto de mão pode revelar histórias. Ou começar uma.
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