segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Diário de Ana Carolina - O Primeiro Beijo


11 de maio, sexta

14 h 15

Hoje acordei de mau humor. Estava com raiva por que ontem eu estava na rua com as minhas amigas e a minha mãe me mandou entrar sendo que ainda era dez horas da noite, e isso para mim é um absurdo. Poxa, eu já tenho 13 anos, por que não posso ficar até mais tarde na rua?
Mas eu tenho uma notícia boa: Hoje a noite ela vai para o forró, e as meninas vão ir numa vestinha que vai rolar na casa da Camila, e é claro que eu vou ir. Escondida.
Ei, minha mãe acabou de gritar “Filha! Não é para sair enquanto eu estiver fora, ein!”, como é que ela sabe que estava querendo aprontar? Pois é, coração de mãe nunca se engana.

21 h

A mãe e o pai saíram faz um tempinho. A Valéria e a Luana estão aqui, me ajudando a escolher uma roupa. Acho que vou usar aquele vestido tomara que caia que ganhei de presente da madrinha. Só estou um pouco desconcertada por que toda hora a Lu fala que hoje eu vou dar meu primeiro beijo de língua. E, sei lá, eu sei que o Rafael e o Maurício estarão na festa, e se eles estarão lá então o Cleber também vai estar.
Cleber é uma gracinha. Faz tempo que paquero ele, mas sua timidez não deixa ele tomar um atitude e chegar logo em mim. Será que essa noite vai rolar? Se a Camila estiver lá, com certeza que não. Ela é louca para ficar com o Cleber, e vive fazendo charminho para ele, desde o dia em que descobriu que eu estava de olho nele.
Ahh, não quero nem olhar para a cara dela. E se ela vier com graça, vai descobrir que vaca voa.

12 de maio, sábado

0 h 40

Vim embora antes que a festa acabasse. Mas eu não imaginava que ao chegar minha mãe estaria aqui. Diz ela que ligou e ninguém atendeu, então veio a mil. Ah, eu tinha que ter lembrado de deixar o telefone fora do gancho! Broncas, broncas e mais broncas. Mas não é por causa disso que estou com raiva.
A Camila ficou com o Cleber. Dá para acreditar? Eu sei, não dá mesmo. Deve estar todo mundo curtindo com a minha cara, afinal, todo mundo sabia que eu era a fim do Cleber.
Acho que vou dormir. Beijos Diário, amanhã conversamos mais.

11 h

Acordei agora pouco. Mamãe veio aqui trazer meu café-da-manhã. Ela queria conversar comigo. Veio com aquele papo “e aí, como foi a festa?”, como se eu não soubesse que está bolada comigo e só estava tentando ser simpática para ver se descobria tudo o que aconteceu na festa. Tipo se eu beijei.
Disse que tinha sido daora e tudo mais, mas ela não se deixou enganar.
“Você não me pareceu muito alegre quando chegou...” disse ela. E pior que eu estava tão frustrada que acabei abrindo o jogo. Sabe o que ela disse? “Se eu fosse você, largava mão desse garoto! Não, melhor: Caçava ele e deixava claro que ele já tem dono! Que tal bater um papo com a Camila, para ela te dar umas dicas?” falou, dando uma piscadela. Minha mãe imitando adolescente fica bizarra. “Acontece que a garota de quem eu falei é a Camila”, expliquei.
Ela ficou boquiaberta. Também, adorava a Camila, mais até do que a mim. Sempre a usava como referência, em toda e qualquer situação. “Por que você não aprende Balé? A Camila faz há dois anos e disse...” ou “Você precisa ter mais modos, Ana Carolina! Precisa ver como a Camila usa os talheres certos para cada refeição!”, entre outros.

15 h 30

As meninas vieram aqui me chamar para tomar sorvete. Segundo a experiência da Luana, o Cleber só deu bola para a Camila por que os amigos estavam por perto e ele não queria fazer feio. “Mas por que ele nunca deu bola para mim?” perguntei. E a Valéria, que é faz o tipo romântica e melosa, disse que por mais assanhado que o cara seja, ele apresenta mais respeito e sente certa timidez diante da garota que gosta.
Então, nosso plano é o seguinte: Eu vou ignorar o Cleber. Para ele se tocar e vir logo atrás de mim. Vai ser facílimo seguir esse plano, afinal, estou morta de raiva dele agora que me convenci de que ele gosta de mim.

13 de maio, domingo

3 h

Estou louca para amanhecer logo. Fiquei horas rolando na cama, mas não consigo dormir. Fico aqui com os olhos estralados pensando bobagem.
Ontem os moleques vieram aqui na minha rua, e fiz do jeito que as meninas disseram, nem olhei para o Cleber. Tá bom, eu olhei, mas só quando ele não estava olhando. Ain, será que isso vai dar certo, ein?

18 h

Exatamente às meio-dia a campinha foi tocada e quando abri a porta tinha um ursinho e um cartão que dizia “me encontre daqui duas horas, na lanchonete da Paula”. Fiquei super animada, estava besta como o plano deu cedo tão rápido.
Mas quando cheguei na lanchonete não era o Cleber que estava me esperando. Era o Rafael. Ele me deu um abraço carinhoso, estava todo encabulado, e comprou meu sorvete favorito. Fiquei tão sem graça, e acho que ele percebeu, mas pensou que era timidez.
Ele sabia qual era meu sorvete favorito. Até minha mãe, que é minha mãe, quase nunca acerta meu sorvete. O Rafael me cobriu de meigos e elogios. Disse que sempre quis ficar comigo, mas eu nunca dava bola para ele, e suas tentativas eram em vão.
Lembra, na festa de sexta? Ele não saia de perto de mim, toda hora trazia um copo de refrigerante para me agradar, mas eu não tirava o olho do Cleber. E quando vi ele ficando com a Camila, disse que queria ir embora, e o Rafael me trouxe sem reclamar.
O Rafael era um garoto lindo. Como é que eu nunca tinha notado isso antes? Fiquei tão feliz em saber que alguém, enfim, sentia atração por mim que me deixei levar pela emoção e lhe beijei. Ele não reclamou do fato que eu não sabia beijar, afinal, aquele também era o seu primeiro beijo.
Ele me disse que esperava por aquilo desde que me viu pela primeira vez, mas só queria chegar em mim depois que esse xodó que eu tinha pelo Cleber passasse.
E adivinha? Passou. Por que quando eu e o Rafa saímos de mãos dadas dali, senti algo estranho no peito, era mais que ansiedade, mais que atração. Eu estava apaixonada e não sabia.

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