quinta-feira, 22 de setembro de 2011

8 de Março


Aquele dia, 8 de março, era aniversário do meu ex. Se eu estivesse com ele, iríamos fazer como a quase um ano atrás, namoraríamos o dia inteiro. Mas não, hoje eu estava jantando na casa do meu atual namorado, que estava comigo a mais de três meses, e demonstrava muito carinho e atenção para comigo, tanto que achou que já era hora de me apresentar para sua família.
Ao contrário do meu ex, que só me decepcionava, Evandro era um amor de pessoa. Ele parecia ser o cara ideal para mim, me enchia de presentes e sempre preparava surpresas maravilhosas. Era super romântico, e um cara muito família. Como era dia da mulher, fez de tudo para me agradar, desde um passeio no shopping (com direito a compras) a jantar em sua casa e dormir abraçadinha com ele.
Aquela seria a primeira vez que eu dormiria com ele, e estava muito emocionada, pois ele estava fazendo com que tudo parecesse perfeito. Além do mais, queria muito conhecer minha sogra, e ele não parava de dizer o quanto sua família iria me adorar. Um homem perfeito e completo, isso que ele era, bonito e educado.
Mas apesar disso tudo, eu ainda guardava um pouquinho de tristeza em meu peito, e nada parecia suficiente para levar minha auto-estima as alturas, fazia o máximo de esforço para sorrir e demonstrar satisfação, mas o meu olhar vago e sem brilho me entregava. A verdade é que eu ainda guardava mágoas do passado.
Todos os meus membros e sentidos conspiravam contra mim. Meu coração queria me obrigar a confessar o que estava dentro dele, meus pensamentos parecia me mostrar flashes do meu antigo relacionamento, e minhas mãos e pernas estavam inquietos. Ah, que vergonha, admitir que ainda sentia falta daquele canalha depois de tudo o que passei com ele.
A família de Evandro era maravilhosa, todos estavam sendo muito simpáticos comigo, mas eu não conseguia conter a amargura de me sentir como se ali não fosse meu lugar, que eles não deviam estar me tratando assim, afinal, eu nem ao menos tinha consideração por eles.
No meio do jantar, não agüentei e pedi licença para ir ao banheiro. No caminho, ouvi comentários agradáveis sobre mim. “Ela não é adorável?” dizia minha sogra. “Acho que dessa vez você acertou, ein Evandro!” dizia sua tia. Fechei a porta atrás de mim e olhei-me no espelho.
Realmente, eu estava disfarçando a tristeza muito bem, o rosto maquiado nem deixava transparecer o que eu sentia lá no fundo. Olhei para dentro dos meus olhos, encarei a mim mesma, deixei que aquilo que estava dentro de mim fosse para a superfície e, enfim, estava pronta para um confronto com meus sentimentos.
- Olhos, você não lembra o quanto ele te fez chorar?
- Mas você sabe que eu só tenho olhos para ele...! – respondeu-me os olhos, revirando-se.
- Boca, você não se lembra das discussões que sempre tínhamos?
- Não. Só me lembro do gosto delicioso que tinha os seus beijos...! – disse a boca, toda lunática.
- Mente, você não se lembra o quanto ele te perturbou com perjúrios e mentiras?
- Só me lembro dos bons momentos que passamos ao seu lado. – disse a mente, e logo me mostrou cenas de amor e ilusão.
- E você, pobre coração?! Não consegue sentir um pingo de ódio pelo que tanto que sofreu?
- Ora, claro que não! Eu o amo, e o amor supera tudo!
- Fiquem quietos! – quase gritei. – Como é possível vocês ignorarem todas as lágrimas que escorreram, todas as noites mal dormidas, todas a dor que senti... por favor, me ajudem a superar e a esquecer!
Mas eles não queriam me compreender. O coração apertou no peito, enquanto eu soluçava e meus olhos lagrimavam, avermelhados. Parei de pensar bobagem. Não adiantava conversar comigo mesma, aquilo não iria me levar a nada. Lavei o rosto e voltei para a mesa de jantar. Estava louca para fingir que eu estava feliz, como se aquilo pudesse se tornar realidade instantaneamente.
Após um ou dois filmes, cujo título nem me lembro, fomos nos deitar. Evandro me abraçou carinhosamente, cheio de seus meigos e louco para fazer algo mais. Disse que queria tresnoitar comigo enquanto me beijava no pescoço, depois no queixo, depois encontrando meus lábios. Suas mãos me acariciavam com delicadeza, e tudo aquilo era muito gostoso, eu não podia mentir.
Mas logo pus-me a lembrar de como queria que a minha primeira vez tivesse sido com o inútil do meu ex. De como planejara aquilo, e quantas vezes ele me deixara esperando. Assim, no meio da noite escura, não senti necessidade de segurar as lágrimas que me vinham aos olhos, permitindo que elas deslizassem pelo meu rosto, tombando no travesseiro.
Lógico que Evandro não percebera nada, ele continuava na mesma empolgação enquanto descobria nossos corpos. Abraçava-me com força e, quando sentia alguma ausência de emoção, ou quando meu corpo se enrijecia, me perguntava ansioso se estava fazendo algo errado. Claro que não, ele era perfeito, ele sempre fazia tudo certo. E era esse o problema. Em quase dois anos de namoro, meu ex nunca me amou como ele me amava.
Por muito tempo, não me relacionei por medo de sofrer de novo, mas eu tinha certeza de que Evandro nunca me faria sofrer. Ah, como eu queria tê-lo conhecido primeiro! Como eu queria amar-lhe da mesma forma que ele me amava! Talvez eu estivesse me precipitando, talvez ele fosse capaz de me fazer esquecer toda a dor.
- Evandro, você é um cara maravilhoso, por favor não fique magoado mas...
- Mas?
- É que... eu acho... talvez...
- Fala meu amor, estou te ouvindo.
- Acho que ainda não estou pronta.
- Ora, tudo bem! – riu ele.
Tornou a me abraçar carinhosamente e não demorou que se deixasse levar pelo sono. Enquanto a mim, tentei dormir entre soluços, para que no dia seguinte eu acordasse e fingisse que estava tudo bem.

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