terça-feira, 12 de julho de 2011

Quando ele disse tchau

Se eu não tivesse guardado aquele colar de prata, talvez eu não tivesse compreendido a sua despedida. Anos se passaram desde aquele dia, mas me sinto bem em, por fim, ter chegado a alguma conclusão.
Era quatro horas da tarde, mas o céu já escurecia, devido a tempestade que se formava. Avistei-a no horizonte, e acompanhei sua aproximação sem desviar os olhos. Quando as primeiras gotas começaram a cair, eu continuava no mesmo lugar, mas ele já tinha ido embora.
Foi-se embora de uma vez, me deixou só, desolada. Chorei, joguei-me contra a chuva, gritei contra os ventos, gritei mais alto que os trovões, mas ninguém me ouviu. Somente hoje, que me sinto madura o bastante para relembrar a situação sem sentir o peso das lágrimas, somente hoje compreendo o quanto ele me fez bem.
No pingente do colar está gravado as nossas iniciais, o pingente lembra uma pétala de rosa que, por sua vez, me lembra a forma como ele me pediu em namoro. Ele segurava uma rosa na mão. Quando ele disse tchau, eu senti os espinhos dessa rosa me ferir por dentro. O pingente não tinha a textura de uma pétala, que é macia, suave, leve. O pingente era frio, e naquele momento eu senti ele queimar minha pele, entre meus seios. Do lado de dentro do corpo, o coração também queimava.
Do mesmo modo que queimou quando lhe vi pela primeira vez. Só que, desta vez, era uma sensação ruim, sufocante.
Pena que não guardei a aliança. Joguei-a fora no mesmo instante em que ele me deu as costas.
Quando toquei seus lábios com os meus pela última vez, num beijo que a tempo ele reprimia, não senti a umidade e o calor de antes, não senti o gosto doce do amor. Seus lábios estavam secos e frios e amargos. E nem ao menos fechamos os olhos, como costumávamos fazer, com a intenção de aproveitar toda a emoção do momento. Hoje eu compreendo que aquele beijo tinha sabor de despedida. Ele estava me dizendo tchau e eu não sabia.
Ah, se eu soubesse! Se eu soubesse não teria sido assim. Seu eu soubesse teria olhado para si, teria gravado cada detalhe seu. Se eu soubesse teria lhe dito tchau primeiro, antes que ele virasse as costas e fosse embora.
Talvez assim não teria guardado comigo a dor da rejeição. Hoje não a tenho mais conosco. Não seu, acho que a perdi em algum lugar do passado. Hoje digo: Que bom que ele foi embora, fazendo-me sentir a liberdade pulsar em meu corpo! Permitindo-me provar outros sabores!
Paro enfrente àquela loja e entrego a corrente ao homem de terno que se encontra no balcão.
- Uau. Isto aqui tem um bom valor...
- Não para mim. - Afirmo e sorrio.
O valor do colar se foi quando ele me disse tchau.

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