quarta-feira, 11 de maio de 2011

Aquele dia, naquele quarto

Acordei me sentindo poderosa. Meu namorado me dissera que eu estava com um ar de perigosa. Ele estava certo.
Eu simplesmente havia me cansado de suas inúmeras reclamações, sobre meus cabelos, sobre o modo como eu me vestia, sobre minha maquilagem, sobre a maneira como eu cozinhava um arroz. Vivia me dizendo que, como uma garota comprometida, eu devia ser mais comportada. Eu não queria ser comportada. Eu não suportava mais ouvir sua voz em me ouvido, dia e noite, a toda hora, criticando, questionando, opinando...
- Maquilagem forte chama muita atenção!
- Por que você não prende o seu cabelo?
- Essa regata é justa demais, que tal aquela bata?
- Tira esse salto, coloca esse tênis aqui...
- Que tal se formos num lugar mais reservado hoje?
- Ah, cala a boca! - respondi naquele dia, antes que ele começasse a falar.
Eu havia me cansado daquele mundo, eu queria ser eu mesma, eu queria quebrar suas regras, eu queria fazê-lo parar de impor barreiras na minha vida, no meu eu. E naquele dia eu acordei com a certeza de que eu podia.
Puxei-o para o meu quarto, dizendo-lhe que tinha preparado uma surpresinha. Ele se animou. De início, assustou-se com os inúmeros rostos colados pela parede.
- É para eu me inspirar. - expliquei.
Isso, era isso! Era isso que estava causando toda aquela confusão dentro de mim: Eu estava inspirada! Havia passado a manhã toda lendo uma daquela revistas femininas como a tempo eu não fazia, e de repente ela veio de encontro comigo e me inundou. Ah, ela, a inspiração, fora ela quem me fizera picotar a revista e colar os rostos na parede.
Eu queria mudar. Eu queria ser o que sempre fui, mas nunca tivera coragem de mostrar. Eu queria que meu namorado me conhecesse, ultrapasse a superficialidade e reconhecesse o que tinha dentro de mim, minha verdadeira personalidade, eu sempre quis mostrar minha cara, e naquele dia eu podia, pois estava inspirada para isso.
Eu queria os olhos de Amy Winehouse, o atrevimento de Lady Gaga, os cabelos de Alice Decall, os lábios da Rainha Branca de Alice no País das Maravilhas... Separei tesouras, pentes, maquilagem, bijuterias, spray de cabelo e uma pilha de roupas novas, personalizei meu quarto e trouxe meu namorado, para que ele assistisse de perto a revelação de mim mesma.
- Sente-se aí. - ordenei - está preparado? - não permiti que respondesse - o show vai começar. - sorri maliciosamente.
Pus-me na frente do espelho, comecei pelos cabelos, longos e castanhos. Cortei cinco dedos do comprimento e criei um franjão por cima dos olhos.
- Você gosta desse tênis? - questionei, e pichei todos meus calçados, todas minha roupas comportadas. - de agora em diante, é isso que vou usar: saltos de boneca. Gostou?
Ele estava boquiaberto, alegando a todo momento que eu tinha usado algum tipo de droga.
- Vocês está louca Mariana?
- Mariana não! Mary. Sabes que não gosto do meu nome, sempre soube, por que insiste?
Tracei o lápis preto no contorno dos olhos e depois esfumei. Abusei do batom vermelho e uma fina camada de gloss nos lábios. Colori as pálpebras de rosa cintilante. Coloquei aquele decote maravilhoso que ele detesta. Vesti aquele shorts jeans curto que eu não vestia desde que começara a namorar.
- Acho que vou fazer uma tatuagem bem aqui... - sorri.
- Não Mariana, por favor! - implorou ele.
- Mary! - gritei.
- Ok, Mary, pare, se você continuar nós vamos terminar!
Ri. Joguei-me por cima dele, beijei-o. Ele tentou me abraçar, mas segurei suas mãos ao alto.
- Por que está me segurando?
- Porque é a minha vez de brincar.
- Como assim? Eu nunca brinquei com você.
- Você sempre me tratou como se eu fosse sua marionete. Hoje é a minha vez. Quem manda em mim sou eu.
Rasguei suas roupas.
Fizemos tudo do meu jeito, ele querendo ou não.
- Ei, eu não conhecia esse seu lado. Sabe de uma coisa? Até que eu gostei! - disse ele, dando-me um beijo no rosto e sorrindo para o teto.
Olhei para sua face, olhei para o teto, olhei para meu corpo nu. Sim, eu faria uma tatuagem ali mesmo. Arranquei a aliança do dedo, onde estava gravado a data de dois anos atrás, e lhe entreguei.
- O que é isso, Mary? Achei que tínhamos feito as pases, que sua crise de loucura tinha se cessado...
- Você se enganou. Eu quero me libertar.
E foi a partir daquele dia, naquele quarto, que eu comecei a ser feliz.

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