terça-feira, 30 de novembro de 2010

Saudades e Lembranças (aquele velho chato)

Caminho lentamente em direção ao banheiro, acompanhado de uma bela moça que costuma me ajudar com minhas necessidades. Simpatizo com seu sorriso e com a doçura de suas mãos, todavia não me recordo de seu nome.
- Está na hora de tomar o seu remédio, Sr. Willan. - Diz ela, estendendo a mão com um comprimido e um copo com água.
Seu uniforme branco ofuscou minha vista, e acabo precisando de seu auxílio para tomar o tal remédio. Percebi que minhas mãos se encontravam trêmulas e me envergonhei.
- Precisa de mim, senhor?
Enquanto fechava a porta atrás de mim, respondi que não, minha voz grave e rouca era quase inaudível. Deparei-me com o espelho e me apavorei com meu próprio reflexo: Poucos fios de cabelos brancos, a barba por fazer, a pele enrugada e o olhar opaco. A dentadura me faz salivar, mas resisto ao ímpeto de arrancá-la da boca. Surpreendi-me com o fato de que, naquela idade, já me encontrava assim: Na beira do abismo.
Lavei o rosto inúmeras vezes, e aos poucos pude compreender que sou o que restou de mim e da minha vida. Por onde andava minha doce esposa e minha filha estudiosa e cheia de energia? Sabia que não conseguiam mais conviver com minhas dores e minha memória ruim, por isso pedi para que me colocassem no asilo, todavia não esperava que fosse abandonado aqui. Então eu era mesmo uma pedra no caminho de ambas? Nem ao menos tinha lembranças da última visita que havia recebido, apenas me recordava de algumas ligações inúteis.
- Sr. Willian, vamos dar início a ceia, venha se juntar a nós! - Chamou-me a moça bonita.
Sentei-me em minha cadeira de balanço e olhei ao meu redor. Mesmo usando meus óculos, mal enxergava os demais senhores que me cercavam, alguns bem mais velhos que eu. Entre eles, alguns rostos me eram estranhos, somente mais tarde notei que se tratava de filhos e netos de meus colegas. Um gosto amargo dominou meus lábios: Era o sabor da angústia.
Avisto o céu escurecendo e me esforço para compreender as cantigas natalinas. A moça serve as refeições, cautelosa com os alimentos que despertaria minhas inúmeras alergias.
Frustro-me com tamanha fraqueza, e admito que realmente me encontrava perto do fim. Logo, sinto saudades do tempo em que era saudável e inteligente, com os sentidos aguçados. Já não era o mesmo jovem aventureiro, os ossos se retorciam e pediam cama.
Pacientemente, a moça me acompanhou até meu quarto. Deitei-me, mas ainda assim não me confortei, sentia um enorme vazio ali. A solidão tomou posse de mim quando me dei conta de que ninguém viera festejar o natal comigo. Afinal, eu não passava de um velho doente e inútil, um incômodo.
Sinto doer o coração e questiono: "Deus, por que não me leva daqui e cessa de vez com esse sofrimento? Sou um solitário sobrevivendo a cada dia melancólico como uma planta que, queimada aos poucos pelas chama da vida, perde seu pigmento vivaz!".
As lágrimas fazem minha vista arder, perco a respiração. Incomodado, fecho os olhos e, entre saudades e lembranças, finalmente encontro a paz.

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