quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Batom Rosa Sabor Morango


- Mãe! O morango acabou! – Gritou Daniel, ao deparar-se com a falta de sua fruta preferida.
- Estou sem dinheiro meu amor, mas prometo que até o fim da semana comprarei mais. Isso se o seu pai depositar a pensão, não é mesmo? – Disse sua mãe, docemente. - Agora vá para a escola que já está no horário.
Daniel lhe deu um beijo na bochecha e fez o que ela disse. Sabia que ela falava a verdade, mas morangos era o seu vício, não resistia ficar um dia sem comer da fruta, quanto mais uma semana inteira!
Dona Rosa que lhe acostumou assim, sempre o tratando com mimos e carinho, fazia o possível para agradar o filho, pois achava que assim ele não sentiria a falta do pai.
 Todavia, a rotina do garoto na escola era desconhecida para ela. Daniel tinha poucos amigos, talvez por que gostasse de estudar e os outros meninos estranhassem isso. Também não era namoradeiro, já que achava que ficar com garotas á toa era uma perda de tempo. Mesmo assim, vivia com um sorriso no rosto, procurando se acomodar com o pouco que tinha.
A única coisa que lhe irritava era a falta do morango, da mesma maneira que um alcoólatra sente falta de sua bebida.
Mas, ao entrar em sua sala de aula naquele dia, notou que os morangos já não habitavam seus pensamentos. Havia uma aluna nova. Estava bem vestida, com a postura ereta, sem desviar os olhos do professor. Parecia não respirar, mal piscava os olhos, se mantinha totalmente séria. E o pior, encontrava-se na carteira ao lado de Daniel.
Não conseguiu prestar atenção na aula. O perfume doce da garota lhe invadia as narinas, atordoando-o. Alguns meninos aproximaram-se maliciosamente, e esta reagiu severamente. Ao mesmo tempo em que se sentiu extremamente atraído pela jovem, Daniel sentiu forte temor em falar com ela. Afinal, ele parecia ser invisível á seus olhos, já que não conseguia parar de encará-la enquanto esta não havia lhe direcionado o olhar se quer uma vez.
As garotas lhe invejaram, nenhuma ousou aproximar-se dela. Até seu nome era atraente. Chamava-se Lizandra. Sua beleza pura lhe cativou, tinha longos cabelos negros, olhos claros, unhas compridas. A boca carnuda deixou-lhe com sede.
Observava cada movimento seu em silêncio. Ela era, por sinal, muito vaidosa. Cuidadosamente, abria um estojo e tirava de lá um espelho e um batom. Sensualmente, contornava a superfície dos lábios, destacando-o. Tornava á passar o batom de hora em hora. Daniel não conseguia manter-se quieto diante de tal gesto. O hálito fresco de Lizandra roubava-lhe a respiração. Um cheiro de morango lhe atraía.
Estaria ele delirando com a vontade de comer tal fruta?
Passou a noite em claro, não conseguia dormir com o morango em sua mente.
No dia seguinte, aturou o sofrimento calado. Lizandra estava realmente lhe incomodando, e o melhor á fazer era ignorá-la. Todavia, ao usar o batom, o aroma de morango lhe seduzia.
Ás vezes tinha a leve impressão de sentir o morango em seus lábios. Não me refiro á fruta, mas ao batom. Ou talvez, o gosto dos lábios de Lizandra.
- O que foi, quer passar? – Sorriu ela, ao ver que ele nem piscava.
Daniel não disse nada, apenas encolheu-se, feito um gato arisco.
- Estou brincando! – Riu ela, deixando-o sem graça. – Não seja tímido, já faz dias que notei que você fica me filmando e não diz nada!
- Desculpa, eu...
- Não se desculpe! Olhar não arranca pedaço.
Sua voz era aveludada, proporcionando-lhe prazer em ouvi-la. Não se sentia á vontade em falar com ela. Pelo contrário, desconfortou-se ainda mais com aqueles olhos verdes fixos em si. Por este motivo, no dia seguinte, sentou-se distante da garota.
Ela pareceu se magoar com tal atitude, já que na hora de ir embora, seguiu-o para tirar satisfações.
- Por que ficou tão longe de mim? Se não quer minha amizade é só falar, e não lhe incomodo mais!
- Ótimo, faça isso. – Disse Daniel, arrependendo-se de imediato.
Não sabia ao certo por que estava agindo assim, sua mãe vivia lhe dizendo que não devia ser grosseiro com uma garota em hipótese alguma. Mas Lizandra era diferente. Ela fez com que a tão indesejada escola se tornasse um ambiente adorável. E mesmo depois de uma noite mal dormida, ele se sentia ansioso para vê-la.
- Ainda hoje irei á feira. Quando chegar em casa, seu morango estará na geladeira. – Avisou Dona Rosa.
Daniel ficou indiferente.
Já na sala, pôs-se á observar Lizandra, e não agüentando mais de desejo, propôs uma conversa antes de irem para casa. Ela concordou, com um brilho nos olhos jamais visto.
Como combinado, encontraram-se após as aulas, mas não disseram uma palavra enquanto caminhavam.
- Daniel... não tem nada para me dizer?
Daniel lhe encarou. Sinceramente, não tinha mesmo nada á dizer.
- Posso me expressar de outra forma? – Pediu ele.
Lizandra ficou confusa. Sentindo os lábios secos, retirou o batom da bolsa e contornou os lábios.
- Com assim? – Questionou, sem olhá-lo nos olhos.
Mas era tarde para pedir explicações, Daniel lhe prendeu num beijo intenso, arrancando de seus lábios todo o morango que desejava. Lizandra deixou cair o batom, mas não se importou, ele já não tinha importância agora que ela havia conseguido o que queria.

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